Projecto Arquivos e Estudos do Miguelismo

Prosopografia e epistolografia

Daniel Estudante Protásio (Centro de História da Universidade de Lisboa)

Prosopografia

Considerada como uma das ciências auxiliares da história – melhor dito, uma das ciências sociais e humanas e das humanidades – a prosopografia afirma-se enquanto uma das ferramentas disciplinares mais úteis para o estabelecimento de um estado da arte da história política e institucional, no caso presente, da contrarrevolução e do miguelismo (1820-1866).

Um dos primeiros trabalhos prosopográficos colectivos foi o do estudo Prosopographia Imperii Roman, publicado na Alemanha em 1897 e 1898 e abarcando a longa duração (de 31 a.C. a 305 d.C.). Em 1971 Richard Stone (1919-1999) teoriza o que na actualidade se entende por prosopografia. 

Estuda a prosopografia mobilidade socioinstitucional, a formação de redes de sociabilidades e de alianças estratégicas e ideológicas, a meio caminho entre a estatística grupal e a biografia colectiva (objecto tanto da literatura, quanto da sociologia e da ciência política).

No presente dicionário crítico, verbetes como oficiais-generais, moderados e ultras permitem elencar uma série de informações aparentemente díspares, as quais, quando entrecruzadas e referenciadas em conjunto, possibilitam uma visão de conjunto que ultrapassa, até certo ponto, as visões tradicionais da historiografia portuguesa sobre a contrarrevolução e o miguelismo. Para tal são preciosas as achegas informacionais da genealogia, heráldica, falerística e de outras ciências complementares da história.

A prosopografia, na encruzilhada da história social, do estudo dos regimes políticos e das elites que o suportam, bem como da natureza das instituições e das políticas que definem períodos históricos curtos e médios, permite densificar e problematizar o que, de modo geral, tem sido estudado com alguma ligeireza ou profundidade, conforme os ventos e as modas da historiografia portuguesa.

Epistolografia

A ensaísta Andrée Crabbé Rocha (1917-2003) classifica a epistolografia como um género literário per se, caracterizado pelo segredo e pela expectativa da inviolabilidade do conteúdo, dado o uso histórico do lacre e moderno do envelope, com eventual recurso a uma linguagem “oblíqua” ou, mesmo, a uma cifra convencionada.

O conceito de epistolário recua pelo menos ao século XVIII, época em que numerosos exemplos são “singularmente enriquecidos por novas directrizes diplomáticas, políticas e culturais, de nítida feição cosmopolita” (ROCHA 1985: 18, 20 e 27).

A filóloga Maria Leonor Carvalhão Buescu (1932-1999) considera que a redacção de uma carta constitui um diálogo, em diferido, por vezes interrompido pelo tempo que demora a ser recebida e respondida; e pela possibilidade de um ou mais exemplares poderem ser perdidos ou interceptados. (BUESCU 2003: 93-95).

Por seu lado, Ana Canas Delgado Martins, referindo-se já ao início do século XIX, afirma que

os elos de parentesco facilitavam a produção de correspondência privada, que era incluída nos documentos oficiais criados no decurso de funções oficiais desempenhadas pelo remetente ou pelo destinatário.

Embora a autora note as semelhanças entre cartas privadas e ofícios, utiliza nomenclaturas distintas conforme se refere a umas e a outras.

No caso de um dos exercícios analíticos contidos em Estudos sobre o miguelismo (vol. I) especificamente sobre a correspondência particular entre os viscondes de Asseca e de Santarém, invocam-se mais de centena e meia de cartas (sempre privadas) e dois ofícios, numerados, oficiais, arquivados em organismos públicos (PROTÁSIO 2026). Paradoxalmente, muitas das cartas aí analisadas utilizam as mesmas fórmulas de cortesia nos endereços e na saudação final presentes nos ofícios, o que é inabitual, segundo CANAS 2007: 234-235.

Em Dezembro de 2021 tive ocasião, num livro sobre o brigadeiro miguelista João António Jakou Rebocho (1795-1854), de ensaiar uma descrição estruturada de uma lista de figuras que, complementando o índice onomástico remissivo, permitisse hierarquizar alguns aspectos das elites servidoras da causa de Dom Miguel, a saber:

  • nobres titulados (duques, marqueses, condes, viscondes e barões, tanto nacionais, quanto estrangeiros);
  • militares (oficiais-generais, tanto estrangeiros, quanto nacionais);
  • magistrados;
  • diplomatas;
  • eclesiásticos;
  • publicistas (estrangeiros).

Também foi elencada informação referente a laços familiares: pai e filhos, tio e sobrinho, irmãos, cunhado, esposos e primos.

FONTES

– BUESCU, Maria Leonor Carvalhão Buescu,  “Aspectos da Epistolografia de Alcipe”, In Sousa, Maria Leonor Machado de Sousa; Marion Ehrhardt; Pereira, José Esteves Pereira (coords.). Alcipe e a sua Época, Lisboa, Edições Colibri/Fundação das Casas de Fronteira e Alorna, 2003, pp. 93-95.
– MARTINS, Ana Canas Delgado, Governação e arquivos: D. João VI no Brasil, Lisboa, Instituto dos Arquivos Nacionais, 2007, pp. 234-235.
– PROTÁSIO, Daniel Estudante, Coração português, fidelidade realista: o ultra João António Rebocho, Lisboa, Chiado Books, 2021, pp. 113-118.
– PROTÁSIO, Daniel Estudante, Estudos sobre o miguelismo, vol. I, 2026 [no prelo].
– ROCHA, Andrée Crabbé, A Epistolografia em Portugal, Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1985 (2ª ed.), pp. 18, 20 e 27.
– SILVA, José Alberto, A Academia Real das Ciências de Lisboa (1779-1834): ciências e hibridismo numa periferia europeia, Lisboa, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 2015 [Doutoramento em História e Filosofia das Ciências], p. 57).
– STONE, Lawrence, “Prosopografia”, Revista de Sociologia Política. Vol. 19, nº 39, Curitiba, Junho de 2011, p. 115.

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