Daniel Estudante Protásio (Centro de História da Universidade de Lisboa) e Pedro Borges de Lemos (Jurista e Genealogista)
Manuel dos Santos de Avendaño e Benevides Vassalo nasce a 15 de Setembro de 1790, no Paço da Rainha (Paço da Bemposta), em Lisboa, e é baptizado no dia de Todos os Santos (1 de Novembro) seguinte, na freguesia dos Anjos (ANTT, Paroquiais, Anjos, Liv. B16, fl.12).
Desempenha as funções de Reposteiro da Real Câmara (do qual é demitido opor decreto de 10 de Agosto de 1824, segundo ANTT, Mordomia da Casa Real, Liv. 25, fl. 158 v. e de correio de Dom João VI e de Dom Miguel I. O ofício de reposteiro é classificado enquanto “ofício de grande estimação, sendo provido com elementos da primeira nobreza da Corte ou de elevada posição social (SANTOS 1976: 245). É readmitido, enquanto Reposteiro da Real Câmara, a 28 de Julho de 1826 (ANTT, Mordomia da Casa Real, Liv. 26, fl. 266 v.)
É filho de Carlo Carmelo Michele Vassalo e D. Rosa María de San Lorenzo d’ Avendaño y Benevides, O pai é negociante da praça de Lisnoa, de origem maltesa. A mãe é oriunda de uma família fidalga, de Vigo, com lustre nobiliárquico de origem portuguesa, que remonta à linhagem medieva dos Teles de Meneses, da qual, D. Leonor Teles, rainha de Portugal, é o maior expoente (VALLADARES S.D.).
No dealbar do século XIX, os pais de Manuel Vassalo são rendeiros à Casa do Infantado de “terras e casas” na denominada Quinta Velha no Campo de Santa Bárbara, em Lisboa, integrada no complexo da Real Quinta da Bemposta (ANTT, Ministério do Reino, Mç. 962, Proc. 12).
Após o regresso da família real do Brasil, em 1821, o Infante D. Miguel “reanimou o gosto pelas toiradas, que elle improvisava a cada momento toireando na Quinta Velha da Bemposta (PIMENTEL 1893: 225) . Em tal contexto, vale a pena destacar a amizade que liga Manuel Vassalo a João José dos Santos Sedovém, picador da Casa Real, cavaleiro tauromáquico e “activo auxiliar do Senhor D. Miguel nas corridas de toiros” (CABRAL 1936: 61), de cujo filho Sedovém é padrinho de baptismo (ANTT, Paroquiais, Benfica, Liv. B12, fl.21).
Juntamente com José Veríssimo Camelo Borges da Mesquita, e com João José dos Santos Sedovém, Manuel Vassalo é um dos três principais aristocratas ditos caceteiros, e por isso célebres durante os anos de 1823 a 1834, da Vilafrancada à convenção de Evoramonte. São designados enquanto infantistas, no período inicial da contrarrevolução portuguesa, de 1823 a 1828, no qual Dom Miguel ainda não desempenha funções políticas oficiais. O conhecido escritor Tinop (José Pinto de Carvalho, 1858-1890) designa-os por amigos do príncipe, e a Veríssimo por “esturrado caceiteiro de Dom Miguel” (CARVALHO 1898: 174 e 186). É classificado, pelo memorialista marquês de Fronteira, enquanto “verdadeiro confidente e amigo” de Dom Miguel (FRONTEIRA 1986 [1928], “Parte primeira e segunda (1802 a 1824)”: 338).
Em consequência do alegado assassinato do Marquês de Loulé, a 28 de Fevereiro de 1824, Manuel Vassalo é acusado judicialmente, sem, no entanto, chegar a ser pronunciado pelo alegado crime. Após a Abrilada, é detido a 22 de Maio do mesmo ano. Por essa ocasião, é descrito enquanto dotado de estatura alta, rosto redondo, cabelo, barba e olhos pretos (ANTT Intendência Geral da Policia, Avisos e Portarias, mç. 48, doc. 51-75). É libertado em Agosto de 1824, ficando registado, em obra de 1835, que
Manuel Vassalo foi visto no Rossio acompanhado de uma guerrilha, que o levava como em triunfo (GOUVEIA 1835: 96).
Em 1828, quando Dom Miguel assume o trono, Manuel Vassalo desempenha as funções de criado particular de Sua Majestade, correio do Real Gabinete, e oficial da Secretaria de Estado dos Negócios do Interior (ANTT, Desembargo do Paço, Estremadura e Ilhas, mç. 788, doc. 50).
Manuel Vassalo é primo no 4.º grau de parentesco de dois dois mais insignes representantes da causa miguelista na região do Minho, ambos ultrarrealistas: o tenente-coronel Baltasar José de Araújo e Azevedo (Chaviães, Melgaço, 1802-Idem, 1874), o qual foi capitão do Regimento de Infantaria 8, e do major Luís Vicente de Araújo e Azevedo, mencionado como ”miguelista ferrenho” (ESTEVES 1989 2: 11). Os dois irmãos são filhos do sargento-mor (major) António Jacinto de Araújo e Azevedo, morgado do Campo da Feira de Fora, sobre o qual escreve o genealogista Augusto César Esteves:
Como político pertenceu à facção dos miguelistas e quer nas cadeiras camarárias quer na sua casa nunca deixou de mostrar as suas ideias tradicionais com toda a naturalidade (ESTEVES 1989 1: 554).
Os três primos são, respectivamente, trineto e bisnetos do capitão de Ordenanças João de Araújo e Azevedo, e de sua mulher, D. Mariana de Araújo, senhores da Casa de Carvalho do Lobo, em Melgaço.
Como tantas outras famílias legitimistas, muitos anos depois da convenção de Évoramonte, a 11 de Abril de 1853, Manuel Vassalo (a caminho dos 62 anos de idade), é testemunha do matrimónio da fidalga D. Gertrudes da Conceição Borges de Lemos com o morgado João Miguel Rolim Tavares Torlades Pereira d`Azambuja (ANTT, Paroquiais, Santiago de Alcácer do Sal, Liv. C6, fl.167). Como curiosidade, acrescente-se que o pai do nubente foi guarda-mor do Tabaco, serviu como oficial no Corpo de Voluntários Realistas, tendo perecido durante a guerra civil de 1832-34. Quanto ao avô materno e tio paterno, Jacob Frederico Torlades Pereira d`Azambuja, do Conselho de D. João VI, serviu na qualidade de diplomata, em Washington, enquanto Encarregado de Negócios de D. Miguel, de 1829 a 1834 (PEREIRA 2023).
FONTES:
Manuscritas ANTT (Arquivo Nacional da Torre do Tombo)
Desembargo do Paço, Estremadura e Ilhas, m. 788, doc. 50;
Intendência Geral da Policia, Avisos e Portarias, mç. 48, doc.s 51-75.
Mordomia da Casa Real, Livs. 25, fl. 158 v. e 26, fl. 266 v.
Paroquiais, Freguesia dos Anjos, Livro B16, fl.12.
Paroquiais, Freguesia de Benfica, B12, fl.21,
Paroquiais, Freguesia de Santiago de Alcácer do Sal, Liv. C6, fl.167.
Impressas
– CABRAL, António, A Morte do Marquês de Loulé, Lisboa, Edição da Empresa Nacional de Publicidade, 1936, p. 61.
– CARVALHO, Pinto de Carvalho (Tinop), Lisboa d`Outros Tempos, Vol. II (Os cafés), Lisboa, Livraria de António Maria Pereira – Editor, 1898, fl.174;
– ESTEVES. Augusto César, O meu livro das gerações melgacenses, Melgaço, Edição da nora do autor, 1989, vols. 1, fl. 554, e 2, fl. 11.
– FRONTEIRA, Marquês de, Memórias do… e de Alorna, D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto. Ditadas por ele próprio em 1861. Revistas e coordenadas por Ernesto de Campos de Andrada. “Parte primeira e segunda (1802 a 1824), Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1986 (ed. fac.-sim. da ed. de Coimbra, Imprensa da Universidade, 1926), p. 338.
– GOUVEIA, João Cândido Baptista de, Polícia Secreta dos últimos tempos do reinado do Senhor D. João VI – sua continuação até dezembro de 1826, Lisboa, Imprensa de Cândido António da Silva Carvalho, 1835, p. 96.
– PEREIRA, José Machado Pereira, “Borges de Lemos, um herói ribatejano no constitucionalismo liberal português”, Diário de Notícias de 21 de Abril de 2023.
– PIMENTEL, Alberto, A Última corte do absolutismo em Portugal, Lisboa, Livraria Ferin, 1893, p. 255.
– RODRIGUES, Bruno Miguel da Cunha, O sítio do Salitre em Lisboa. Um século de diversões: Teatro, Touros e outros Jogos”, Lisboa, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2024, p. 111.
– SANTOS, Carlos Macieira Ary dos, “Estudos de Direito Nobiliárquico Português – O Foro de Reposteiro da Real Câmara”, Armas e Troféus, 1976, III série, Tomo V, p. 245.
– VALLADARES, Marquês de (Ignacio Pérez-Blanco), estudo genealógico de D. Rosa María de San Lorenzo d`Avendaño y Benevides.
Última actualização: 2 de Fevereiro de 2026.