Projecto Arquivos e Estudos do Miguelismo

Sedovém, João José dos Santos

Daniel Estudante Protásio (Centro de História da Universidade de Lisboa)

João José dos Santos Sedovém, com frequência grafado Sedvem, foi um cavaleiro tauromáquico português, famoso no século XIX, sobre o qual paira uma aura de mistério e de lenda.

É António Cabral quem melhor identifica o enquadramento familiar e social de Sedovém:

O sota Leonardo [Leonardo Joaquim Cordeiro, natural de Samora Correia] era um dos executantes das ordens do Infante, assim como o picador da Casa Real, João Sedovém [sic], natural de Benfica e aí residente, que em 1824 – repito ainda – contava 23 anos de idade e acumulava o lugar de cobrador dos talhos de Alcântara com a vistosa posição de cavaleiro tauromáquico, sendo um activo auxiliar do Senhor D. Miguel nas corridas de toiros, de que Este era, como se sabe, muito apaixonado. O Sedovém, ao que me consta, era filho de pai que ocupava boa posição. Tinha bens em Almeirim. Preso, como implicado na Abrilada, foi solto em Agosto de 1824 [CABRAL 1936: 55, 60 e 61].

Oriana Alves resume as suas funções enquanto cobrador de talhos de Alcântara, picador da Casa Real, cavaleiro tauromáquico e caceteiro:

O par Severa e Vimioso (D. Francisco de Paula de Portugal e Castro) é fruto dessa convivência, em que figuram muitas outras personagens históricas, entre elas partidários miguelistas como o referido Sedvem. João José dos Santos Sedvem, toureiro “valente” e amigo de D. Miguel – tourearam juntos – começou como cobrador de talhos em Alcântara, foi picador da Casa Real e acabou como um dos “caceteiros” do rei, ou encarregados de deslombarem os liberais (Carvalho, 1898: 186) [ALVES 2014: 19].

A 3 de Julho de 1831 é inaugurado o Campo de Touros de Santana, cuja construção terá sido supervisionada por Sedovém (https://restosdecoleccao.blogspot.com/2015/11/praca-do-campo-de-santanna.html).

Ramalho Ortigão, nas Farpas, providencia descrições deliciosas pelo picaresco:

Quando [Dom Miguel] vinha de Queluz a Lisboa, galopando à desfilada, com uma vara debaixo da perna, entre os seus companheiros mais assíduos, João Sedvem, o picador, o José Verissimo, o da policia, a força de soldados de cavalaria que o acompanhava, ficava aos poucos pela estrada destroçada pela fadiga: ele nunca chegou senão só. No dia em que recebeu ao pé da mata, na Quinta Velha, onde estava caçando ao falcão, por volta das duas horas da tarde, a noticia de ter entrado a barra de Lisboa a flotilha que apresou e levou para França todos os nossos vasos de guerra surtos no Tejo, ele veio de Queluz a Belém, em menos de três quartos de hora. Esse homem que tinha a grande popularidade que trazem consigo as legendas da força e da destreza física, era sua majestade El-Rei, o sr. D. Miguel I.

Os constitucionais foram uma invenção da policia do sr. D. Miguel. Eles não combatiam o direito divino, nem os privilégios da nobreza e do clero, nem o regime absoluto, nem a servidão popular; o que eles combatiam principalmente era o José Verissimo. Afirmavam-se os direitos do homem porque se tinha percebido que esses direitos prejudicavam os do João Sedvem. Os revolucionários portugueses não vieram da ciência, não vieram do amor da justiça, das impaciências da liberdade, dos contágios da Convenção, da revolta da dignidade humana. Não. Eles vieram simplesmente dos cárceres, dos cárceres em que o regime despótico recalcou de mais a força viva da nação. Os princípios eram o pretexto sob o qual se vingavam as ofensas feitas não ás ideias vigentes, mas aos interesses estabelecidos. As denuncias partiam dos lesados. A ideia exposta na organização da Companhia dos vinhos preocupava mais os espíritos em Portugal do que o principio representado em França pela existência da Bastilha. Havia mártires da liberdade que nunca tinham amado a liberdade com devoção mais intensa que a do Sedvem e que não teriam posto duvidas irremissíveis em continuar a «dobrar a cerviz, ao jugo da tirania» como se dizia no estilo do tempo; somente o que eles tinham recusado era emprestar algumas moedas ao José da Policia. Para a maior parte da gente a vitória da Idea liberal foi simplesmente a morte do Teles Jordão. Finalmente o sr. D. Miguel de Bragança, primeiro, foi o príncipe cuja força fez na monarquia portuguesa o rombo por onde a liberdade apareceu. O Sr. D. Miguel de Bragança, segundo, figura-se-nos pela sua expressiva carta ao sr. conde da Redinha, uma pessoa extremamente debilitada. Ser o protector e o amigo de todos os portugueses é enfraquecer-se difundindo-se. Os antigos fortes concentravam-se. Pobres de nós! Como somos diversos de nossos país! Os pletóricos, sangrados, legaram á geração que lhes sucedeu a impotente anemia! [Ortigão 1873].

FONTES

ALVES, Oriana, «Lisboa na poesia do fado ao longo da história da canção», in QUEIROZ, Ana Isabel (Coord.), Paisagens literárias e percursos do Fado, Lisboa, FCSH/NOVA, 2014, p. 19.

CABRAL, António, A morte do marquês de Loulé. Uma tragédia na corte. Mistério que se esclarece – Documentos inéditos, Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade, 1936, pp.
ORTIGÃO, Ramalho, As Farpas, 3.º ano, vol. XX, Outubro a Novembro de 1873.
https://restosdecoleccao.blogspot.com/2015/11/praca-do-campo-de-santanna.html

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