Daniel Estudante Protásio (Centro de História da Universidade de Lisboa)
Marie-François-Henry de Franquetot, marquês e duque de Coigny, nasce em Coigny, na Normandia (outras fontes afirmam Paris), a 28 de Março de 1737 e falece em Paris a 19 de Maio de 1821, aos 84 anos de idade.
Filho do marquês Jean de Coigny (1702-1748), tenente-general do Exército e coronel general do Corpo dos Dragões, e neto do duque François de Franquetot de Coigny (1670-1759), marechal de França. Tal como avô, também foi marechal de França.
Por morte do pai, torna-se, com apenas 11 anos de idade, governador militar de Choisy, por provisões de 16 de Abril de 1748.
Mestre de campo general dos Dragões a 24 de janeiro de 1754 (com 17 anos). Trata-se de um posto equivalente ao moderno tenente-general, ficando apenas subordinado ao coronel general daquele corpo (equivalente a marechal).
Marechal-de-campo do Exército em 1761.
Aos 15 anos, entra no corpo dos mosqueteiros do rei. Em 1756 é promovido a brigadeiro de Cavalaria.
Serve na guerra dos Sete Anos (1756-1763), entre outros, sob as ordens do conde de Clermont (1709-1771), príncipe de sangue, filho terceiro de Luís III, príncipe de Condé (1668-1710).
Promovido a coronel general dos Dragões em 1771 (passando, assim, a liderá-los), função da qual se demite em Setembro de 1783.
Governador militar de Cambrai em 1772.
Escudeiro-mor de Luís XVI de 5 de Dezembro de 1774 a 1 de Outubro de 1787.
Cavaleiro, em 1777, das ordens honoríficas do Saint Esprit e de Saint Michel.
A 3 de Março de 1778 ocorre o chamado incidente da Terça-Feira de Carnaval (Mardis Gras) de 1778, entre a duquesa de Bourbon, esposa de Luís VI Henri, duque de Bourbon e futuro príncipe de Condé, e o conde de Provença, irmão de Luís XVI e futuro Carlos X de França, para cuja resolução o duque de Coigny contribui, sendo organizado um duelo entre os dois homens.
Em 1780 ascende ao posto de tenente-general do Exército. A proximidade com a rainha Maria Antonieta provoca suspeitas de conluio amoroso com o duque. ZWEIG 1938: 113 refere ser o duque de Coigny um dos elementos que domina a troupe da rainha e do conde de Artois, designando-o (a Coigny) enquanto
un des plus constamment favorisés et le plus consulté.
O 2.º Visconde de Santarém referencia-o em 1837:
Mr. de Vitrolles, com a sua graça costumada, contou-nos, no dia 28 de Maio [de 1837], falando eu nesta personagem, que durante a emigração esteve em Lisboa, que era um belo homem, e que foi grande conquistador de senhoras, que era voz pública que ele amante da rainha Marie Antoinette, e que ele, temendo que uma tal anedota continuasse a grassar no público e que viesse aos ouvidos do rei e que lhe fizesse perder a imensa fortuna, pedira do duque de Guines que fizesse tudo pelo desmentir [sic] (SANTARÉM 1914: 232)
Par de França em 1787, pela elevação ao pariato do ducado de Coigny.
Deputado, pela nobreza, enquanto representante do bailiado de Caen, aos Estados Gerais, nos quais se destaca enquanto um dos opositores mais determinados à novidades revolucionárias.
Emigrando, junta-se ao exército dos príncipes (assim designado por incluir o condes de Provença e o príncipe de Condé), liderado por Louis V Joseph, príncipe de Condé (1736-1818). Chefia a Casa Militar do rei Luís XVIII até à dissolução do dito exército, em Novembro de 1792.
Passa a Portugal, onde obtém o grau de capitão-general do Exército (segundo a hierarquia militar francesa), enquanto se ocupa activamente dos interesses do conde da Provença (futuro Luís XVIII) junto do regente D. João. Enquanto Coigny está em Lisboa, os duques de d’Harcourt e d’Havré estão em Londres e em Madrid, numa rede diplomática oficiosa articulada e organizada internacionalmente (CHAVES 1984: 25). Referido por RAMOS 1977: 7, n. 17, enquanto «representante de Luís XVIII em Lisboa».
C’est le cas des deux ci-devant que nous considérons comme les personnages-clés du réseau contre-révolutionnaire de Lisbonne, à savoir le duc de Coigny et le duc de Luxembourg. Nous pouvons moins d’autant moins nous dispenser de les citer ici que le second d’entre eux est très souvent mentioné dans nos correspondances. Coigny passe por être le chef du réseau. La convention ne l’ignore pas et fera de son expuslion un préalable à la reprise des relations diplomatiques. Le gouvernement portugais se fera prier longtemps, non certes par solidarité avec les emigrés ni par référence au droit des gens, mais parce que Coigny renseigne le cabinet de St James et que lon s’en méfie à Lisbonne. Quant à Luxembourg, il est loin d’être un emigré ordinaire et son poids politique paraît avoir été plus important que celui de Coigny.» (PINS 1984: 6-7).
Contrai matrimónio, em 1795 com a condessa de Chalôns (CHAVES 1984: 24). Nesse mesmo ano, consegue obter um subsídio secreto do regente português para o conde de Artois, irmão mais novo de Luís XVIII e futuro rei Carlos X [CHAVES 1984: 25-26].
Preso a 6 de Março de 1803 («Il eut l’imprudence de trop se faire voir à Lisbonne»),, é afastado por Lannes.
Regressando a França com Luís XVIII, em 1814, é designado par do reino e governador do Hôtel des Invalides, conjunto de edifícios de carácter museológico e assistencial, integrando, ainda, uma catedral.
Ascende ao posto de marechal do Exército, recebendo o respectivo bastão a 3 de Julho de 1816, aos 79 anos.
Morre a 19 de Maio de 1821, estando o seu corpo inumado nos Invalides.
Uma das sobrinhas do duque de Coigny, mundanamente conhecida enquanto Aimée de Coigny (12 de Outubro de 1769 – 17 de Janeiro de 1820) , Anne-Françoise-Aimée de Franquetot de Coigny, pelo casamento, duquesa de Fleury e condessa de Montrond, é objecto de um poema de André Chenier (1762-1794), poeta e jornalista francês guilhotinado sob o Terror. Aimée de Coigny teve um salão literário parisiense de grande prestígio, convivendo, ao longo da sua vida, com o príncipe de Talleyrand, com madame de Staël e o barão de Vitrolles.
FONTES
CHAVES, Castelo Branco, A Emigração Francesa em Portugal durante a Revolução, Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1984, pp. 24-26-
Nouveau Larousse Universel, vol. 1, Paris, Larousse, 1948, p. 393.
PINS, Jean de, Sentiment et Diplomatie au debut du XIXe Siècle…, Paris, Fundação Calouste Gulbenkian/Centro Cultural Português, 1984, pp. 6-7.
RAMOS, Luís A. de Oliveira, «Franceses em Portugal nos fins do século XVIII», in Da Ilustração ao Liberalismo. Temas históricos, Porto, Lello & Irmão, 1977, p. 7, n. 17.
SANTARÉM, 2.º Visconde de, Inéditos (Miscelânea), coligidos, coordenados e anotados por Jordão de Freitas (bibliotecário da Biblioteca da Ajuda) e trazidos à publicidade pelo 3º Visconde de Santarém, Lisboa, Imprensa Libânio da Silva, 1914, p. 232.
SILBERT, Albert, Do Portugal de antigo regime ao Portugal oitocentista, Lisboa, Livros Horizonte, 1981 (3.ª ed.; 1.ª ed. 1977), p. 57.
ZWEIG, Stefan, Maria Antonieta, Porto, Civilização, 1938 (2.ª ed. port.), p. 113.
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