Projecto Arquivos e Estudos do Miguelismo

Abbans, Achille François Éléonore, marquês de Jouffroy d’

Daniel Estudante Protásio (Centro de História da Universidade de Lisboa)

Última actualização: 22 de Junho de 2026 (primeira versão: 17 de Junho de 2026)

Achille François Éléonore, marquês de Jouffroy d’ Abbans, nasce em Écully (comuna de Lyon) a 20 de Janeiro de 1785, e morre em Turim (capital do reino da Sardenha-Piemonte) a 1 de Dezembro de 1859, aos 74 anos de idade.

Filho de Claude François de Jouffroy d’Abbans (1751-1832), marquês de Jouffroy d’ Abbans, arquitecto naval, engenheiro, industrial e membro da maçonaria, que se notabiliza pelo protótipo de barco movido a vapor, em 1776, e de Marie-Magdeleine de Pingon de Vallier (m. 1829).

Achille François Éléonore, marquês de Jouffroy d’ Abbans, foi um homem de letras, arquitecto militar e mestre de forjas francês, cujo percurso de vida se cruza com os destinos dos legitimismos francês e português.

Durante a vigência do reino de Itália, satélite do império napoleónico, entre 1805 e 1814, Jouffroy d’Abbans desempenha, sucessivamente, as funções de engenheiro nas forças navais régias, director, durante dois anos, nas minas de chumbo de Vice Novo, e comissário da guerra no 2.º Corpo de Exército em Udine.

Em 1814 regressa a França, e em 1815 segue Luís XVIII para Gand, aquando do regresso de Napoleão I, a partir da ilha de Elba. Por esse facto, é agraciado com o grau de cavaleiro da Legião de Honra. Também em 1815 publica Des idées libérales des français en 

Não é despicienda a protecção régia concedida por Luís XVIII (1815-1824) e por Carlos X (1824-1830) ao marquês Claude François de Jouffroy d’Abbans, pai do biografado, a partir de 1816, a qual lhe permite fundar o estaleiro naval Jouffroy d’Abbans, e inaugurar o Charles-Philippe, barco a vapor, a 16 de Maio desse ano, primeiro momento da linha de navegação a vapor no rio Sena. De resto, o marquês filho parece viver à sombra dos feitos do progenitor, em França, desse ano até 1827.

De 1816 a 1823 é director da Gazette de France, órgão de imprensa fundado em 1631 sob o patrocínio do cardeal Richelieu, que a partir de 1792 assume a o estatuto de jornal oficial dos realistas, mais tarde do império de Napoleão I e da monarquia constitucional francesa sob Luís XVIII.

Em 1820 publica Les Fastes de l’anarchie ou précis chronologique des événemens mémorables de la révolution française depuis 1789 jusqu’en 1804.

Dois anos depois, em co-autoria com Jean-Baptiste-Joseph Jorand (1788-1850),  artista e arqueólogo, é a vez de Les Siècles de la monarchie française, ou Description historique de la France depuis ses premiers siècles jusqu’à Louis XVI… Précédé d’une Dissertation sur l’état des Gaules sous la domination romaine à l’époque de l’invasion des Barbares, obra que mescla análises de história factual, política, institucional e moral.

Em 1826, conhecendo Dom Antoine, abade da abadia de Nossa Senhora de Melleray, situada no departamento de Loire-Atlantique, de fundação cisterciense, mas refundada em 1817 por monges trapistas ingleses e irlandeses, fica impressionado com os modernos métodos agrícolas e industriais instituídos. Adquire, em consequência, a propriedade vizinha de la Jahotière, na qual instala uma forja munida com alto forno.

Entretanto, o Journal du Commerce de 23 de Dezembro de 1826 publica, do marquês, a “Notice sur les manufactures de fer du comté de Staffort”, uma análise comparativa da metalurgia na Grã-Bretanha, e da França.

Porém, não se confirmando a presença de hulha (carvão betuminoso) no solo da propriedade de la Jahotière, o negócio vai por água abaixo, obrigando o marquês a exilar-se em Londres (finais de 1827).

De 1829 em diante, publica três títulos diferentes: Du nouveau ministère (1829); Avertissement aux souverains, sur les dangers actuels de l’Europe (1831); e Adieux à l’Angleterre, par le Cte Achille de Jouffroy (1831).

É provavelmente na capital britânica que se cruza com o barão Mauritz (Maurice) Salomon von Haber, aventureiro germânico, que se faz passar por representante local do banco dirigido pelo pai, Salomon von Huber (1768-1839), banqueiro da corte de Baden. O barão Haber frequenta, enquanto exilado político, o círculo do visconde de Asseca, Embaixador Extraordinário e Ministro Plenipotenciário, oficioso, de Dom Miguel, em funções até Julho de 1831.

Publica o jornal La Légitimité, cuja circulação é proibida na França de Luís Filipe I.

Em 25 de Julho e 14 de Novembro de 1832, Joaquim Leocádio da Costa, agente credenciado para contrair um empréstimo financeiro em Londres, informa o conde da Lousã, ministro da Fazenda e presidente do Erário Régio, e António Isidro da Costa, negociante da praça de Lisboa (e seu irmão primogénito), de que o barão von Haber e o marquês de Jouffroy d’Abbans se tentam fazer passar por banqueiros, e agentes de empréstimo, quando na verdade não passariam de comissionistas, ou intermediários, de uma casa bancária que não representam. Joaquim Leocádio da Costa chega mesmo a indicar que o marquês é preso em Londres, por causa da suposta conspiração legitimista da duquesa de Berry, nora do rei Carlos X, destronado aquando da revolução parisiense de Julho de 1830 (SANTARÉM 1919 III: 459-461 e 487).

Já anteriormente, a 25 de Junho desse ano, Joaquim Leocádio da Costa narra, em ofício dirigido ao conde de Lousã, uma conversa tida com Heliodoro Jacinto de Araújo Carneiro, seu colega agente de português para o empréstimo a contrair em Londres, na qual é perceptível a natureza impetuosa e irreflectida de Heliodoro (semelhante, de resto, à de António Ribeiro Saraiva):

Discorreu ele [Heliodoro], primeiro, sobre o estado e dificuldades das finanças do reino, e necessidade de se achar meios de remediar-lhes; e, nesta parte, concordámos facilmente. Disse que, falando com Sua Majestade, Lhe ponderara estas mesmas cousas e Lhe propusera lançar mão de um meio para remediá-las, de que quase todos os outros Estados da Europa se tinham servido, a saber – de um empréstimo. Que lembrara, então, para este efeito, Mr. A[chille] de Jouffroy, homem muito realista, com muitos conhecimentos em comércio, muito interessado pela causa de El-Rei Nosso Senhor, e que já tinha cooperado para o empréstimo de Espanha. Que Sua Majestade, por então, nada respondera; porém, que, indo depois falar ao aos Excelentíssimos ministros de Estado, finalmente o sr. visconde de Santarém se deliberara a propor o negócio em conselho [de ministros], e que, aí, só V. Ex.ª [o conde da Lousã] se opusera, fundado em que empréstimos eram sempre medidas muito onerosas para as nações, etc. Que, não obstante, Sua Majestade determinara, finalmente, com V. Ex.ª, que se ajustasse o empréstimo entre 68 e 70 [milhões de francos], e não, como se tinha falado, acima de 60. […] Além disso, ajuntou [Heliodoro] que Mr. de Jouffroy era muito estimado de El-Rei Nosso Senhor, e que a prova disso era o prestar-se Sua Majestade, como se prestava, a ser padrinho de um filho do mesmo Jouffroy (SANTARÉM 1919 III: 449-450].

Em 1833 publica Considérations sur le Portugal, opúsculo que, não contendo grandes novidades, enquanto discurso sobre a legitimidade de Dom Miguel, não pode deixar de ser assinalada, enquanto instrumento de propaganda política.

Mais tarde abandona a política, voltando a França, na qual continua a publicar obras de divulgação histórica, e a dedicar-se a invenções de cariz vário, sobretudo, relacionadas com o caminho de ferro.

 

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