Projecto Arquivos e Estudos do Miguelismo

Haber, barão Maurice (Moritz) Salomon von

Daniel Estudante Protásio (Centro de História da Universidade de Lisboa)

Última actualização: 18 de Junho de 2026 (primeira versão: 12 de Junho de 2026)

Maurice (Moritz, em alemão) Salomon von Haber, banqueiro austríaco de origem judaica, nasce em Carlsruhe a 22 de Novembro de 1798, e morre em Frankfurt-am-Main a 3 de Novembro de 1874, a poucas semanas de completar 76 anos.

Filho de Salomon von Haber (1768-1839) e de Friederike Trudel Model (1773-1831).

Salomon von Haber, pai de Maurice, contribui, em grande medida, para a fundação do grão-ducado de Baden, estado-satélite estabelecido em 1806 (no âmbito da Confederação do Reno), enquanto protectorado francês, sob a égide de Napoleão I. Baden é, então, governada pelo grão-duque Carlos I , até 1811. Salomon torna-se banqueiro da corte de Baden sob Carlos II Frederico (1811-1818). Em 1829, sob Luís I (1818-1829), torna-se barão de Haber, distinção nobiliárquica extensível aos filhos varões.

Maurice contrai matrimónio, a 6 de Outubro de 1819, com Germaine Worms de Romilly (1799-1873), senhora proveniente da dinastia Worms, negociantes de carvão, banqueiros e armadores navais. Desse casamento nascem 3 filhos.

Na década de 1830, Maurice von Haber é, devido ao apelido paterno e ao matrimónio, um aventureiro político e financeiro, sem obra realizada, que divide o seu tempo entre Londres e a Europa, chegando a vir a Portugal em 1833.

Em carta particular de Londres, datado de 25 de Julho de 1832, Joaquim Leocádio da Costa, agente do empréstimo de 40 milhões de francos a contrair na capital britânica, escreve ao conde da Lousã, ministro dos Negócios da Fazenda, sobre Haber:

Segundo algumas ideias que tenho, inclino-me a crer que Mr. Haber, que se diz barão, vá a Lisboa apresentar-se a V. EX.ª como banqueiro; é de supor que leve cartas de introdução, pois que estas, em geral, são graciosas, não tomando, de ordinário, quem as dá, grande responsabilidade pelas mesmas. […] Este indivíduo consta-me ser de nação israelita, nascido em Carlsruhe, ducado de Baden, que casou em Paris e que seu pai, não levando a bem esse casamento, ele não tornou mais ao seu país; assim como me dizem que há muitos meses está ausente de de sua mulher. Mr. Haber diz que seu pai é banqueiro no seu país; porém, não mostra procuração ou título algum para fazer contratos em nome deste ou de outrem. Sei que ele se recomenda, dizendo que tem muita ingerência com Carlos X; porém, como esta poderia ser de mais valor em tempos mais felizes que o presente, e o que nós devemos pretender, numa negociação destas, é ter banqueiro sólido pelo seu capital, e não só pelas introduções e amizades, por isso não me cativou demasiado a sua conversa, em que me não deixou de parecer, havia  além disso, pouco que inspirasse confiança. Quando me disse o que acabo de referir, eu poderia perguntar-lhe como, tendo ele tanta ingerência ou influência com El-Rei Carlos X, este lhe não deu o empréstimo de 1829, de 80 milhões de francos, que fez com a Casa de Rothschild? E outras perguntas lhe poderia fazer, mas julguei inútil responder mais nada. Nas duas conferências a que Mr. Haber assistiu, sendo-me apresentado, por Mr. de Jouffroy [Achille François Éléonore, marquês de Jouffroy d’Abbans, 1785-1859], como banqueiro, julgando que não o [re]conheci, percebi que me queriam iludir com isso, assim como pelo modo como falavam e respondiam às minhas perguntas, vindo bem no conhecimento que não era mais que sócio na comissão com Jouffroy. Participando, em particular, ao meu colega [Heliodoro Jacinto de Araújo Carneiro] a ideia que fazia do homem, ele me quis persuadir da mesma ilusão em que estava de ser Mr. Haber banqueiro. Mas então me vi obrigado a declarar-lhe, como o tinha encontrado em casa do visconde de Asseca [representante diplomático oficioso, em Londres, de D. Miguel, até Julho de 1831], onde se dava por um realista de Carlos X e refugiado, segundo constava. Devo finalmente dizer a V. Ex.ª que o que tenho presenciado, até agora, são agências para a comissão e não para o empréstimo. Os que vejo aqui figurar são Jouffroy e Haber e seus adjuntos, conde de Croy e príncipe de Broglie: todos estes são emigrados, uns por motivos políticos, outros por motivos de fortuna. Como podem, pois, estas pessoas ser próprias para, com vantagem, se contratar com elas uma tal negociação, sem terem nem representação, nem crédito, nem dinheiro, e sendo estrangeiros aqui? Sei que têm falado com algumas pessoas e, entre estas, alguns amigos meus; as respostas têm sido umas equívocas, outras desagradáveis, outras, promessas para o futuro (SANTARÉM 1919: V 459-461).

Em outra carta particular dirigida por Joaquim Leocádio da Costa, a partir de Londres, a 14 de Novembro de 1832, agora dirigida ao seu irmão primogénito, António Isidro da Costa, negociante da praça de Lisboa, escreve que

Hoje oficio a S. Ex.ª [o conde da Lousã] comunicando-lhe a desagradável notícia que, em consequência da prisão de S.A.R., a duquesa de Berry, e de papéis que se lhe apreendeu, onde o nosso contratador do empréstimo, Mr. Jauge [sic, por Achille François Éléonore, marquês de Jouffroy d’Abbans, 1785-1859], ele foi preso em Paris e metido em segredo rigoroso, como se anunciam todas as gazetas daqui, de Sábado e Segunda Feira. Esta circunstância mais me anima a dizer que o contrato não se realiza, e, na minha opinião, para não perder tempo, o nosso governo deve tomar já novas medidas a este respeito, no caso que queira contrair empréstimo fora do país. Devo, contudo, dizer-te que, a quererem fazê-lo, dêem esta comissão seja a quem for, menos a Heliodoro, porque, se ele continua a trabalhar neste negócio, há-de sempre apresentar pessoas da mesma qualidade, quero dizer – sem os quesitos necessários para tal negócio, como são: crédito, fortuna, etc. (SANTARÉM 1919 V: 487).

Existe correspondência trocada entre o barão de Haber, a partir de Braga e de Leça, e  o 2.º visconde de Santarém, ministro dos Negócios Estrangeiros de D. Miguel, referente ao período de 27 de Maio a 3 de Junho de 1833, de 17 de Junho a 4 de Julho, e de 9 a 11 de Julho seguintes, em SANTARÉM 1919 V: 86-118, 138-165, e 169-179.

 

 

 

Deixe um comentário