Projecto Arquivos e Estudos do Miguelismo

Chateaubriand, visconde François-René de

Daniel Estudante Protásio (Centro de História da Universidade de Lisboa)

O visconde François-René de Chateaubriand nasce em Saint-Malo (Bretanha), supostamente numa noite de tempestade, a 4 de Setembro de 1768, e falece em Paris a 4 de Julho de 1848, a dois meses de completar oitenta anos de idade.

Depois de uma existência errante, na qual serve enquanto militar (1786-1791), viaja pelos Estados Unidos em 1791 e regressa a França, lutando no exército dos emigrados, os contrarrevolucionários comandados pelo príncipe de Condé, em 1792, sendo ferido no cerco a Thionville (5 e 6 de Setembro de 1792).

Exila-se em Inglaterra, entre 1793 e 1800, decidindo, em Maio deste último ano, regressar a França, quando o seu nome é riscado da lista de emigrados. Frequenta o salão literário parisiense de Pauline, condessa de Beaumont (1768-1803), no qual convive com o conde de Bonald (1754-1840), Joseph Joubert (1754-1824) e o marquês de Fontanes (1757-1821).

Edita o Mercure de France, gazeta informativa e literária, durante algum tempo, ganhando notoriedade com a obra literária Génie du Christianisme, de 1802.

Secretário da legação francesa em Roma entre 1803, acompanha o cardeal de Fesch (tio-avô materno do imperador Napoleão), mas desentendendo-se os dois, Chateaubriand transita para as funções de ministro na república de Valais, na Suíça francófona. Demite-se quando sabe da execução do duque de Enghien (primo direito de Luís XVI), executado a 21 de Março de 1804.

Viaja por França (Auvergne), pela Suíça e pela Bretanha em 1806, pelo Oriente (Grécia e Próximo Oriente) em 1806-1807, regressando à sua pátria pelo Egipto, Tunísia e Espanha.

Em 1807 adquire uma propriedade nas imediações de Paris que designa por La Vallée aux Loups, Vale de Lobos, um eremitério no qual vive com a esposa até 1818. Publica Martyrs (1809) e Itineraire de Paris à Jerusalem (1811). É admitido na Academia Francesa em 1811, desenvolvendo crescente oposição política ao império.

A 19 de Julho de 1835, ainda em vida de Chateaubriand, outro visconde, o português de Santarém, descreve a beleza campestre dos arredores de Paris, num dos vários comentários que faz sobre o literato e estadista francês:

Em Sceaux encomendámos o nosso jantar para as 7 horas e partimos para o Valée-aux-Loups, a uma légua de distância. O caminho é lindíssimo. Vai-se sempre por entre arvoredos, parques e magníficas casas de campo, mais simples do que as de Inglaterra. Chegámos, por fim, à casa gótica do duque de Larochefaucauld [1613-1680], que foi ultimamente de Mr. Sosthènes de Larochefaucauld [1785-1864, ajudante-de-campo de conde de Artois, futuro Carlos X e deputado ultrarrealista]. A casa, na parte exterior, representa um château todo gótico, com porta, terraços e ameias. Do lado do parque tem um peristilo de colunas de mármore e estátuas. O parque, as ruas e o bosque são excelentes e aprazíveis. A casa compõe-se de pequenos quartos mobilados, onde se encontram os retratos de madame de Staël, do duque de Larochefaucauld e de Mr. de Chateaubriand, que ali esteve retirado em 1810 e onde compôs algumas das suas obras imortais e ali concebeu o plano de outras. A casa tem um magnífico belvédere [terraço ou pavilhão], donde se avista até Paris. Está, contudo, um pouco arruinada. Está para alugar por 6$000 francos. À volta vimos, entre os bosques, muitos jantares campestres de pessoas de bom tom, que tinham ido em óptimas carruagens (SANTARÉM 1914: 74).

Com data de 30 de Março de 1814, Chateaubriand escreve a brochura De Buonaparte et des Bourbons, sobre a questão da legitimidade dinástica em França. Durante os Cem Dias, em 1815, seguindo Luís XVIII para a Bélgica, sendo nomeado ministro do Interior. Depois da derrota napoleónica de Waterloo, é nomeado par de França, mas não ministro, o que frustra a suas expectativas. Em 1816 torna-se um dos chefes da direita francesa e reclama, em La monarchie selon la Charte, o poder para os ultrarrealistas.

Avec des collaborateurs d’élite comme Bonald, Villéle, Polignac, Nodier, Lammenais, il fonde le Conservateur où, polemiste rédoutable, il attaque le ministère Decazes et provoque sa chute en le rendant responsable de l’assassinat du duc de Berry (1820). Pour l’eloigner, le roi [Luís XVIII] le nomme diplomate (LAGARDE & MICHAUD 1965: 30).

Escreve o opúsculo Mémoires sur la vie et la mort du duc de Berry, publicado em 1820.

Embaixador francês em Berlim (1821) e depois em Londres (1822), é enviado ao congresso de Verona desse mesmo ano, na última das reuniões formais da Santa Aliança. De seguida, é nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros, funções que exerce entre 28 de Dezembro de 1822 e 4 de Agosto de 1824. Foi, de seguida, nomeado para representante diplomático em Génova.

A partir de 1826 (e até 1831), Chateaubriand ocupa-se em publicar as suas obras completas, numa primeira edição, refundindo, consecutivamente, os seus escritos em outras edições, a partir de então (LAGARDE & MICHAUD 1965: 30).

É embaixador de França na Santa Sé entre 1828 e Novembro de 1829, demitindo-se quando o príncipe de Polignac é designado primeiro-ministro. No desempenho dessa função, é referido pelo marquês de Lavradio, representante oficioso de Dom Miguel em Roma.

A partir de 1829, madame Récamier (1777-1849), considerada um ícone do movimento neoclássico, amiga de madame de Staël e de Benjamin Constant, começa receber convidados num salão literário que mantém em Abbaye-aux-Bois, em Paris, num antigo convento expropriado em 1792. É aí que, a partir de 1834, Chateaubriand lê boa parte das obras que redige e publica, para um público selecto.

Com a revolução de Julho de 1830, Chateaubriand demite-se do cargo de par do reino, deixando de receber a respectiva pensão. Coloca-se ao dispor do rei destronado, Carlos X. O seu escrito, Mémoire sur la captivité de la duchesse de Berry, de 1833, é objecto de um processo judicial na Cour d’Assisses, no qual é triunfalmente ilibado. Études historiques (1831), Éssai sur la Littérature Anglaise (1836), Congrés de Verone (1838), são alguns dos títulos que publica, na década de 1830 ((LAGARDE & MICHAUD 1965: 31)).

Outra das primeiras edições das obras completas do visconde de Chateaubriand é publicada entre 1830 e 1836, em 24 volumes, por Lefévre, Libraire-Éditeur e por Ladvocat, Editéur (https://www.rookebooks.com/1830-oeuvres-completes-de-m-le-vicomte-de-chateaubriand). A partir de 1835, o visconde de Santarém, exilado em Paris, começa a referir-se às obras completas, e aos ganhos financeiros do autor francês – o qual, tal como Balzac, luta a vida inteira para pagar dívidas contraídas: “Calcula-se que Mr. Chateaubriand tem ganho 2 milhões com as suas obras”, escreve Santarém em Julho de 1835 (SANTARÉM 1914: 72). A 5 de Outubro seguinte, afirma:

É incrível a prodigiosa memória e a vastidão de conhecimentos deste sábio [Alexander von Humboldt]. A variedade imensa do seu espírito, a graça da expressão. Ele merece bem os lindos versos que Chateaubriand lhe dedicou, e que existem no 3[º] volume das suas obras completas que se publicaram em Paris no ano passado (SANTARÉM 1914: 89).

O visconde de Santarém sentir-se-ia, nesse ano, fascinado com os escritos do prosador e político francês, de tal forma que fala novamente nele, em Dezembro de 1835:

Já que aqui falei neste desgraçado [Dr. Hausser], se desgraça é escapar às garras dos inimigos, e aos ferrolhos de um castelo para descrever os grandes jantares de Londres depois de ter assistido a eles, as caçadas depois de ter participado a elas [nelas], para beber o falerno na pátria de Horácio e de Virgílio, devo dizer que nunca li uma cousa mais fastidiosa pela pequenez de prolixidade de detalhes sobre cousas insignificantes do que as suas viagens de Itália onde o majestoso, o histórico é posto em ridículo, o filosófico despercebido. Aparecendo ao mesmo tempo uma presunçosa presunção. Enfastiado de tanta superficialidade, peguei ao mesmo tempo no Itinerário dos mesmos lugares de Monsieur de Chateaubriand e a minha alma se transportou como ao tempo dos antigos dominadores do Mundo. Que diferença de saber, de filosofia e de estilo! (SANTARÉM 1914: 107-108). 

A propósito de um panegírico da carreira pública dos duque de Cadaval e de Lafões, também exilados em Paris, o visconde de Santarém, em Junho de 1836, utiliza novamente Chateaubriand enquanto paradigma civilizacional:

O autor do artigo diz que, depois da chegada dos duques [de Cadaval e de Lafões] a Paris, ils ont mené une vie rétirée. Isto é conforme com os hábitos principescos antigos desta família, mas que em os nossos dias nem os reis seguem e observam já. Os duques são uns cavalheiros muito bem educados, e dariam em um país estrangeiro uma excelente ideia de si se se mostrassem ao público e na sociedade, se seguissem o princípio de Chateaubriand = «que un homme d’honneur ne doit jamais se cacher= (Santarém 1914: 136).

A propósito da obra de 1829 de Schlegel, intitulada Histoire de Litterature Ancienne et Moderne, de novo o visconde francês serve enquanto referência:

Sobre a França: «Rétour emminent remarquable à la verité, et à la vraie philosophie» = o autor (página 269), depois de citar os delírios da pretendida filosofia, atribui esta restauração das boas doutrinas filosóficas a Chateaubriand e a Bonald. Faz, por outra parte, um grande elogio à obra do conde de Maistre, apesar de o classificar como = Écrivain ultra= (SANTARÉM 1914: 174 e 192; itálico meu).

Esta passagem ilustra, a meu ver, na perfeição, como a recepção e invocação, em Portugal, no século XIX, dos trabalhos filosóficos e políticos de Bonald e Maistre deve ser feita com cautela redobrada, pois poderiam ser referenciados sobretudo enquanto autores filosóficos e literários, sem a força tremenda de um abade de Barruel, por exemplo.

Tratando-se de passagens colhidas nos memoranduns das leituras de Santarém, para serem lidas apenas na privacidade do seu lar e, um dia, da família, algumas não eram necessariamente abonatórias da personalidade do divino visconde: 

Fortia, falando da diferença do carácter entre Monsieur Artaud e Chateaubriand, disse que o 1º ficara sendo amado de toda a gente em Roma, que Monsieur de Chateaubriand, que fora secretário de embaixada no tempo de Bonaparte na mesma corte [1803], que não fora tão acomodante – Que ele dispende elogios a toda a gente, porque a sua mania é que o admirem (SANTARÉM 1914: 197).

Os cálculos da população da antiga Roma experimentaram mesmo exageração. Entre outros, Monsieur de Chateaubriand, mesmo, ainda acreditou que eram de 3 milhões!! (SANTARÉM 1914: 209).

Dicionário da Academia Francesa = Anedota. O prefácio, que é feito por Mr. Villemain, contém muitas palavras que se não encontram no dicionário!! O Jornal das Belas Artes = atacou Mr. Scribe pela palavra Camaraderie dada sua última peça, dizendo que ela se não achava no Dicionário da Academia, enquanto o seu autor era da Academia Francesa. Segundo a opinião geral, Mr. Nodier é hoje um dos homens que sabe melhor a língua, segundo alguns dos seus colegas, tem sido ele e Mr. Chateaubriand que têm introduzido um grande número de palavras que não são Francesas! (SANTARÉM 1914: 215).

Ampère, Histoire Litteraire de la France avant le 12e Siècle, Paris, 1839: “Governo Representativo. A página 326 Tomo I. «Les idées du gouvernement réprésentatif, ansi qui l’a fort bien cru Mr. de Chateaubriand, ont leur origine historique dans le gouvernement de l’Eglise. Le mot réprésentatif , pri dans le sens moderne, sens assez peu le latin, se trouve par la prémiére foi dans Tertulien (SANTARÉM 1914: 256).

Tão tardiamente quanto 1840, ainda o visconde de Santarém refere os negócios e ganhos literários do visconde de Chateaubriand:

Este espírito de ganho é tal, que não só Mr. de Chateaubriand vende as suas obras aos livreiros para que lhe paguem as suas dívidas, e para lhe fazerem, como fizeram, uma pensão vitalícia, mas até dois homens de Estado, e ambos ricos e que por vezes têm sido ministros, cada um deles se fez pagar ultimamente 2$ e 3$ francos por dois artigos biográficos que deram para o Dicionário da Conservação, e para uma das Enciclopédias, em razão da voga dos seus nomes (SANTARÉM 1919 VI: 317, carta de 16 de Novembro de 1840).

No final da vida, já falecido, em 1848, Chateaubriand, o visconde português compara, com certa vaidade, as provas dos seus Atlas com as provas tipográficas do visconde francês:

Eu corrijo 3 provas da mesma folha e Chateaubriand, posto que francês e com compositores franceses, e que corrigiu até 5 e 7 provas, algumas das edições das suas obras, tem mais erros tipográficos se se comparam às minhas” (SANTARÉM 1919 VIII: 317).

FONTES

– LAGARDE, André & MICHARD, Laurent, XIX Siêcle. Les grands auteurs français du Programme, Paris, Bordas, vol. V, 1965, pp. 30-31 e 81.
– SANTARÉM, 2.º Visconde de, Correspondência do… Coligida, coordenada e com anotações de Rocha Martins (da Academia das Ciências de Lisboa). Publicada pelo 3º Visconde de Santarém, Lisboa, Alfredo Lamas, Mota e Cª, Editores, 1919, vols. VI, p. 317, e VIII, 317.
– SANTARÉM, 2.º Visconde de, Inéditos (miscelânea), coligidos, coordenados e anotados por Jordão de Freitas (bibliotecário da Biblioteca da Ajuda) e trazidos à publicidade pelo 3º Visconde de Santarém, Lisboa, Imprensa Libânio da Silva, 1914, pp. 72, 89,107-108, 136, 172, 194, 197, 209, 215 e 256.
– https://www.rookebooks.com/1830-oeuvres-completes-de-m-le-vicomte-de-chateaubriand.

 

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