Daniel Estudante Protásio (Centro de História da Universidade de Lisboa)
Actualizado a 5 de Abril de 2026
Os conceitos de direita, centro e esquerda nascem, conforme é bem conhecido, sob o contexto da Revolução Francesa, em 1789:
At the swearing of the Tennis Court Oath on 20 June, the delegates agreed to abolish the separate representation of the three estates, which thereafter held joint sessions as the recently self-proclaimed National Assembly in the Salle des Menus-Plaisirs. This chamber had very poor acoustics and was totally unsuitable for a meeting of 1100 representatives. In a radical transformation of the chamber in the days and nights of 22 and 23 July, the seating arrangements were changed: rows of staged seating were erected along the side walls as in a modern sports stadium, and the desk used by the president and his assistants was moved to what used to be a side wall. As a consequence, the predominantly revolutionary Third Estate, which used to sit towards the back, now sat to the left of the president, while the highest ranks of the clergy and nobility, who were most sympathetic to the existing regime and used to sit at the front, now sat to the right of the president (Bienfait & Beek 2014: 336).
No que diz respeito à realidade portuguesa, revolucionada a partir de 24 de Agosto de 1820, embora não se fale, usualmente, numa divisão do parlamento vintista quanto a esquerda, centro e direita, ela existe, e está presente, na coalização de várias sensibilidades ideológicas, dentro do Sinédrio, as quais se dividem aquando da Martinhada (a 11 de Novembro seguinte), entre:
- conservadores de direita: os futuros viscondes de Peso da Régua e de Canelas e Joaquim Teles Jordão (futuros miguelistas), Sebastião Drago Valente de Brito Cabreira e o futuro duque da Terceira (futuros liberais cartistas).
- gradualistas, como Silvestre Pinheiro Ferreira e Filipe Ferreira de Araújo e Castro, os quais vão progredir, posteriormente, para a defesa de um tradicionalismo organicista, ou histórico;
- radicais de esquerda, membros da maçonaria, e adeptos de uma soberania popular na qual o papel moderador do rei é meramente simbólico, quase honorífico, para não dizer decorativo.
Com a Vilafrancada e a Abrilada, outorga da Carta Constitucional, no período de transição entre 1823 e 1826, bem como o primeiro cartismo, regência e reinado de Dom Miguel (1826-1834), surgem outros proto-partidos políticos, grupos de pressão, ou de interesses, nos quais indivíduos se ligam, aproximados por sensibilidades ideológicas não completamente definidas ou estabelecidas de forma programática.
Referindo-se ao período das Archotadas, de Julho de 1827 (embora escrevendo já em Março de 1828), o 2.º visconde de Santarém escreve:
dois partidos [sic] […], o que sustentava a influência democrática […] e o ultra-realista” e um terceiro, o “Partido Realista”, o dos moderados. Refere-se, ainda, ao “Partido ultra-realista de Lisboa”. Já depois da queda de D. Miguel designa Francisco de Alpoim e Meneses, publicista e ex-adido de legação, enquanto “furibundo miguelista e grande partidista da monarquia absoluta”. Quanto ao conde da Ponte, enviado oficioso de D. Miguel em Paris e cunhado de Santarém, ironiza ao falar, em 1829, em “Apostólicos ou mais realistas do que El-Rei” (SANTARÉM 1827: 4º, 38 e 10º, 32, SANTARÉM 1919: II 218 e V 314, n. e SANTARÉM 1913: 259).
À direita, e no centro-direita:
- os fusionistas, ou palmelistas, como o conde, marquês de Palmela, muito influenciados por madame de Staël e por Benjamin Constant (que conhece pessoalmente), são adeptos de uma coalização na qual vintistas e cartistas, depois de 1826, se unam em defesa da Carta Constitucional, numa tentativa de conciliar os princípios vintistas da soberania da nação com os do cartismo outorgado;
- os realistas, de cunho moderado, encabeçados quer pelo cunhado de Palmela, o 1.º conde de Vila Real, o qual, na linha do liberalismo doutrinário, e do liberalismo oligárquico do justo meio de François Guizot, procuram conciliar os princípios da Santa Aliança, as determinações dos tratados de Viena de Áustria e de Londres, e a regência de Dom Miguel, em nome de Dona Maria II, excluindo os vintistas enquanto legítimos participantes da vida pública e política; e pelo 2.º visconde de Santarém, o qual aceita a evolução do primeiro cartismo para o regresso ao Antigo Regime, via cortes tradicionais de Lisboa de 1828 (no que é secundado pelo duque de Cadaval e por Sir Charles Stuart);
- os miguelistas, os quais se podem dividir entre moderados e internacionalistas; ultrarrealistas e isolacionistas (incluindo esturrados); independentes. (Como curiosidade, note-se que já em 1879 Camilo Castelo Branco, na novela A Brasileira de Prazins. Cenas do Minho, publicada em 1879, menciona a expressão “esturrado miguelista” (BRANCO S.D. [1879] 91).
Ao centro-esquerda, e à esquerda do espectro ideológico:
- os vintistas;
- os saldanhistas, e outros progressistas, alguns deles membros da maçonaria de inspiração francesa, progressista;
- vários dissidentes do saldanhismo, como José Liberato Freire de Carvalho, críticos da actuação do duque de Bragança, de 1831 a 1834;
- os setembristas, a partir da revolução de 9 de Setembro de 1836.
FONTES
– BIENFAIT, Frits & BEEK, Walter E. A. van, “Political left and right: our hands-on logic”, Journal of Social and Political Psychology, vol. 2 (1), 2014: 336, https://jspp.psychopen.eu/index.php/jspp/article/view/4807/4807.html.
– BRANCO, Camilo Castelo, A Brasileira de Prazins. Cenas do Minho, Mem Martins, Publicações Europa-América, S.D. [2.ª ed.; ed. orig. 1879], p. 91.
– PRÉLOT, Marcel, & LESCUYER, Georges, História das ideias políticas, Editorial Presença, 2000.
– SANTARÉM, 2.º Visconde de, Memórias Verídicas do meu Ministério durante os 3 Meses que o Exerci (Colecção Visconde de Santarém),1827, maços 4º, fl. 38 e 10º, fl. 32.
– SANTARÉM, 2.º Visconde de, Coligida, coordenada e com anotações de Rocha Martins (da Academia das Ciências de Lisboa). Publicada pelo 3º Visconde de Santarém, Lisboa, Alfredo Lamas, Mota e C.ª, Editores, 1919, vols. II, p. 218 e V, p. 314, n.
– SANTARÉM, 2.º Visconde, Inéditos (Miscelânea), coligidos, coordenados e anotados por Jordão de Freitas (bibliotecário da Biblioteca da Ajuda) e trazidos à publicidade pelo 3º Visconde de Santarém, Lisboa, Imprensa Libânio da Silva, 1914, p. 259.