Daniel Estudante Protásio (Centro de História da Universidade de Lisboa)
O visconde Louis Gabriel Ambroise de Bonald (Milau, 2 de Outubro de 1754 – Milau, 23 de Novembro de 1840) é um filósofo e político francês, nascido no castelo de La Monna, em Milau, na antiga província francesa de Rouergue, actual departamento de Aveyron. Falece no mesmo local, aos 86 anos de idade. A sua família provém da Provença, e Bonald é filho único e herdeiro de seus pais, Antoine Sébastien de Bonald, e Anne Boyer du Bosc de Périe (nome de solteira).
O visconde de Bonald é uma daquelas figuras paradigmáticas do pensamento oitocentista europeu que muitos se apressam a afirmar, sem grande preocupação em fundamentá-lo, que influenciou de modo decisivo a contrarrevolução e o legitimismo em Portugal. Nesse sentido, o actual verbete procura sistematizar informação que possa ser relevante para esse debate de ideias, e para confirmar, ou refutar, tal hipótese de trabalho.
A máe de Bonald era jansenista, e o jovem é educado no colégio oratoriano de Juilly, cujo reitor era amigo de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Em 1773 Bonald integra os mosqueteiros do rei, Luís XV, até à dissolução desse corpo, em 1776.
A partir de então, sendo órfão de pai desde os 4 anos de idade, remete-se à condição de senhor terratenente, no torrão natal. Em 1782, aos 28 anos, é eleito para o concelho municipal de Milau e em 1785 designado presidente da municipalidade. Em 1789 introduz o método electivo na designação de um novo presidente, sendo reeleito, dessa forma, em Fevereiro de 1790. Mais tarde, no mesmo ano, é eleito deputado à assembleia departamental. Assim se compreende como, inicialmente, a revolução de 1789, com os seus intentos descentralizadores, terá soado, a Bonald, como positiva, enquanto processo indiciador de reabilitação da nobreza provincial (recorde-se que Edmundo Burke, por exemplo, também saudou tal evento, até compreender o significado profundo das suas transformações). Chega, inclusive, o visconde de Bonald a ser eleito presidente da assembleia departamental. Porém, a promulgação da constituição civil do clero, a 12 de Julho de 1790 (quase um ano depois da tomada da Bastilha), conduz à insatisfação e divergência do visconde de Bonald, face ao regime, e à demissão, em janeiro de 1791, da presidência da assembleia departamental. A constituição civil do clero, relembre-se, significa a completa subordinação desse corpo social ao poder político civil.
Dessa forma, Bonald exila-se em Outubro de 1791, aos 37 anos, partindo com os dois filhos mais velhos e deixando a esposa (Elisabeth-Marguerite de Guibal de Combescure), o mais jovem rebento e a mãe para trás. Junta-se, como tantos outros legitimistas econtrarrevolucionários, ao exército do príncipe de Condé. Estabelece-se em Heidelberga (Alemanha) e, depois, na Suíça. Escreve e publica Theorie du Pouvoir Politique et Religieux dans la Societe Civile Demontrée par le Raisonnement et l’Histoire (3 vols., 1796), condenado pelo Directório francês.
Em 1797 regressa a França, vivendo, em Paris, durante cinco anos, uma espécie de exílio interno. Em 1800 publica Essai Analytique sur les Lois Naturelles de l’Ordre Social, em 1801 du divorce consideré ao XIXe siécle e em 1802 3 vols. de Législation primitive.
Em 1802 Napoleão I, seu admirador, risca-lhe nome da lista oficial dos proscritos, o que tem o condão de permitir ao visconde de Bonald maior liberdade de movimentos e de expressão. Convive com autores quanto o dramaturgo e crítico literário La Harpe (1739-1803) e, sobretudo, com o visconde François-René de Chateaubriand (1768-1848). Escreve uma recensão crítica de A Riqueza das Nações, de Adam Smith (1723-1790) e estabelece uma amizade epistolar com o conde de Maistre (1753-1821), a qual dura uma vida inteira, apesar de nunca se encontrarem presencialmente. Com Chateaubriand, e Joseph Fiévée (1767-1839), dramaturgo, jornalista e antigo espião em Inglaterra, ao serviço de Napoleão, em 1806 Bonald torna-se editor do Moniteur de France, órgão oficial do império. Dois anos depois, em 1808, torna-se conselheiro da Universidade Imperial. Com a restauração bourbónica, o visconde de Bonald torna-se membro do conselho régio da Instrução Pública (1815) e membro da Academia Francesa (1816).
De 1815 a 1823 serve como deputado por Aveyron, sentado na bancada ultrarrealista francesa. Opõe-se à Carta Constitucional de 1814 e à lei sobre o divórcio. Procura, sem sucesso, reintroduzir, em França, as guildas, ou corporações, medievais. Publica, sucessivamente, Réflexions sur l’Intérêt Général de l’Europe (1815), Recherches Philosophiques sur les Premiers Objets des Connaissances Morales e Observations sur un Ouvrage de Madame de Staël (ambos de 1818). Juntamente com Chateaubriand, Bonald frequenta o salão literário parisiense de Julie Récamier (1777-1849). Em 1819 e 1821 são editados os estudos Mélanges Littéraires, Politiques et Philosophiques e Opinion sur la Loi Relative à la Censure des Journaux.
Em 1822 é designado ministro de Estado e no ano seguinte par do reino. Favorece o acto anti-sacrilégio de 1825 e a reinstauração da lei da primogenitura, ponto de vista defendido em ensaio de 1826. Em 1827 preside à comissão régia de censura, estabelecida por Carlos X, e a defesa de alguma censura literária afasta-o de Chateaubriand, que a ela se opunha, fazendo terminar uma longa amizade.
Em 1829 demite-se da câmara dos pares e, com a revolução de Julho de 1830, da vida pública, retirando-se para o castelo de La Monna. Ao contrário de Chateaubriand e de vários legitimistas franceses, o visconde de Bonald não actua politicamente contra a nova dinastia e o novo regime parlamentar.