Projecto Arquivos e Estudos do Miguelismo

Gama, Francisco de Saldanha da

Daniel Estudante Protásio (Centro de História da Universidade de Lisboa)

Actualizado a 16 de Maio de 2026

Sexto de oito filhos adultos de João de Saldanha da Gama Melo Torres Guedes Brito, 6.º conde da Ponte (1773-1809), e de Maria Constança de Saldanha Oliveira Daun (1775-1833), condessa da Ponte (filha do 1.º conde de Rio Maior), Francisco de Saldanha da Gama nasce em data desconhecida, em 1803 ou 1804. É sobrinho paterno do 1.º conde de Porto Santo (1778-1839), diplomata, cortesão e administrador de territórios ultramarinos, no Brasil e em Angola, e materno do 1.º conde, 1.º marquês e 1.º duque de Saldanha (1790-1876), militar e estadista português.

Com a morte prematura do patriarca, o 6.º conde da Ponte, em 1809, aos 36 anos de idade, os oito filhos (4 varões e 4 fêmeas, conforme a nomenclatura da época) ficam entregues aos cuidados da condessa. Esta família de terratenentes da Bahia divide-se, a partir do regresso da corte a Lisboa, entre o Brasil independente, e o Portugal metropolitano.

No caso dos filhos dos condes da Ponte que preferem permanecer no Brasil, não regressando à metrópole, temos:

  • João de Saldanha da Gama (1799-1822), casado com Ana Jacinta, o qual falece, no Brasil, com cerca de 23 anos;
  • Luís de Saldanha da Gama (Rio de Janeiro, 1801-Paris, 1837), 1.º marquês de Taubaté no Brasil (título criado a 12 de Outubro de 1826), diplomata e cortesão imperial;
  • Leonor Maria de Saldanha da Gama (n. 1805), a qual contrai matrimónio, no Brasil, com José Maria Correia de Sá;
  • e José de Saldanha da Gama (Bahia, 1808 – Rio de Janeiro, 1875), que casa, em 1833, com Maria Carolina Reis Barroso (Campas, 1813 – Rio de Janeiro, 1875).

No caso dos descendentes que optam, comprovadamente, por permanecerem portugueses, temos:

  • Manuel de Saldanha da Gama, 7.º conde da Ponte (1797-1852);
  • Maria Amália de Saldanha da Gama Melo e Torres (1798-1866), viscondessa de Santarém, por matrimónio com o 2.º visconde;
  • Francisca de Saldanha da Gama (1802), condessa da Lousã, pelo casamento com o segundo titular dessa casa senhorial;
  • e Francisco de Saldanha da Gama, casado com Maria Carlota Mariah.

Ora, é sobre Francisco de Saldanha da Gama que, em carta particular, datada de 27 de Fevereiro de 1829, dirigida pelo 7.º conde da Ponte, Embaixador Extraordinário e Ministro Plenipotenciário (oficioso) em Paris, ao cunhado, o 2.º visconde de Santarém, ministro dos Negócios Estrangeiros, que escreve o primeiro:

Meu Visconde:

[…]

O negócio do Mano Francisco aflige-me; nunca ele nos deu um momento de prazer; uma ignorância crassa, uma teima continuada, toda a vida, e, por fim, um casamento baixo, pobre e vergonhoso. Tratemos de o salvar. A minha amizade por ele, e o meu dever como seu irmão, me sugerem uma ideia, talvez a única neste momento, mas que bem me custa. E é a de o deixar com a condessa [da Ponte, em Lisboa]. O gosto de vir a Paris pode ser que [o] impeça de tão grande asneira. Eu lhe escrevo directamente, dizendo-lhe o que me parece, e lembrando-lhe que, em Paris, um irmão de um ministro pode casar rico facilmente. Desse modo, talvez ele ceda. Depois de vir, está a paixão passada e, se por cá fizer asneira, será recambiado para lá de novo. Comunica isto à condessa quanto antes; ela receberá a carta que para ela remeto, a selo volante para ela, a ser preciso. E tu, se quiseres, e tiveres tempo, não deixes de promover, conjuntamente com o marquês de Viana, no caso da minha família julgar vir, segundo o que tu à condessa informares sobre a minha situação, a sua viagem em embarcação de guerra. De outro modo, me será mui sensível que ela de lá parta ao menos tão cedo, antes da força do Verão. Eu creio que o navio de guerra que mandas dizer seria bom que viesse, para as minhas ordens, em um porto de França, a fim de seguir o movimento dos rebeldes. Talvez seja desnecessário, agora que já no Havre não há refugiados, e tendo o ministério francês decidido seguir a sua marcha neutral e, até fazê-los acompanhar até ao Brasil por navio de guerra. Se, porém, ele tiver partido já de Lisboa, dar-lhe-ei destino como convier, fazendo-o demorar pouco por causa da despesa, coisa muito atendível para nós. Adeus, perdoa letra, estilo, por tudo ir à pressa, tenho tanto a fazer em dias de correio, que me falta o tempo, fechando-se a mala da embaixada inglesa às 4 horas.

Teu do Coração, Mano Amigo,

Ponte (SANTARÉM 1919 II: 219-220).

Deste modo, podemos vislumbrar um pouco da vida familiar e emocional da família dos condes da Ponte, dividida entre o Brasil e Portugal, nos anos de 1808 a 1829.

FONTES

SANTARÉM, 2.º Visconde de, Correspondência do… Coligida, coordenada e com anotações de Rocha Martins (da Academia das Ciências de Lisboa). Publicada pelo 3º Visconde de Santarém, vol. II, Lisboa, Alfredo Lamas, Mota e C.ª, Editores, pp. 219-220.

 

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