Projecto Arquivos e Estudos do Miguelismo

Berry, duquesa de

BERRY, duquesa de

Maria Carolina Fernanda Luísa de Bourbon-Duas Sicílias, duquesa de Berry, nasce em Nápoles, no palácio régia de Caserta, a 5 de Novembro de 1798, e morre no castelo de Brunnsee, Mureck, na província austríaca da Estíria, a 17 de Abril de 1870, aos 71 anos. É a filha mais velha do primeiro casamento do rei Francisco I de Duas-Sicílias (1777-1830) com a arquiduquesa Maria Clementina da Áustria (1777-1801), filha do imperador Leopoldo II.

A 24 de Abril de 1816 contrai matrimónio com Carlos Fernando de Artois, o duque de Berry (1778-1820), varão secundogênito do herdeiro do trono francês, o conde de Artois (futuro Carlos X).  Porém, menos de quatro anos depois, a 14 de Fevereiro de 1820, o jovem duque é assassinado por Louis Pierre Louvel, bonapartista. A duquesa estava então grávida, nascendo, a 29 de Setembro seguinte, Henrique, conde de Chambord, pretendente legitimista ao trono francês, depois das abdicações de Carlos X e do duque de Angoulême, respectivamente, avô e tio paterno de Chambord, a 2 e 9 de Agosto de 1830.

Depois das jornadas de Julho de 1830, pela qual a dinastia dos Bourbons é substituída pela monarquia liberal de Luís Filipe, rei dos franceses, e das referidas renúncias aos direitos ao trono, a duquesa de Berry assume protagonismo público e político, em nome do filho, o conde de Chambord, Henrique V (1820-1883) para os legitimistas franceses. Sucede que as relações entre a causa legitimista francesa e a congénere portuguesa apresentam sinais de terem sido estreitas, conforme se procura evidenciar de seguida.

No contexto da queda da monarquia tradicional francesa, depois de falhada uma sublevação na Vendeia, a duquesa é presa a 12 de Novembro de 1832, e solta no Verão de 1833 (MAUROIS 343, 353-354 e 360-364). Terá sido o seu conselheiro Simon Deutz (1802-1852), um judeu convertido ao cristianismo, em 1828 (alterando o nome para Charles Gonzaga), que a denuncia. O assunto ganha, como é lógico, foros de escândalo por toda a Europa, incluindo, naturalmente, em Portugal.

Assim, em ofício de 14 de Novembro desse ano, dirigido por Joaquim Leocádio da Costa para o conde da Lousã, é mencionada a prisão de de Jauge [Jouffroy], contratador do empréstimo, supostamente comprometido com a duquesa (SANTARÉM 1919 IV: 483-485).

Em ofício do duque de Cadaval para o visconde de Santarém, datado de 21 de Fevereiro de 1833, escreve o primeiro:

E que me diz V. Ex.ª da vergonhosíssima história da duquesa de Berry? Com efeito, este mundo é insofrível (BNP, Secção de Reservados, ofício de 21 de Fevereiro de 1833).

-Em ofício do visconde para o duque de Lafões de 31 de Maio seguinte, o primeiro afirma:

Depois da denúncia que fez o infame [Simon] Deutz da duquesa de Berry, é da gente tremer! Quando este celerado aqui esteve, só eu o conheci logo e desconfiei dele de modo que preveni o núncio; e a este fez tal impressão que logo se acautelou e, logo depois, viu que me não enganara. Ele era um judeu de Frankfurt que tinha sido baptizado e convertido e tudo devia à duquesa, a quem traiu.

A esta transcrição, junta Rocha Martins a seguinte nota:

Deutz era também um judeu que veio a Portugal tratar de um auxílio para despesa de Berry [sic] e que a denunciou a Thiers o seu esconderijo, sendo a princesa apanhada, com o seu valido Mesnard, numa chaminé onde se ateara fogo (SANTARÉM 1919 V: 103 e n. 1). 

Parece tratar-se da mesma figura – grafada Dietz – que o príncipe Lichnowsky vem encontrar ao serviço de D. Fernando II (LICHNOWSKY 1844, pp. 36-37).

No ano de 1832, o visconde de Chateaubriand escreve uma Mémoire sur la captivité de duchesse de Berry, pelo qual é perseguido judicialmente e em 1833 inocentado (LAGARDE & MICHAUD 1963: 31).

Rocha Martins, em nota a ofício de António Ribeiro Saraiva para o visconde de Santarém, datado de 27 de Junho de 1833, de que é portador o barão de Bordigné, publicista que escreve várias obras a favor de Dom Miguel, afirma ser o barão francês

Agente da duquesa de Berry e muito dedicado à sua causa (SANTARÉM 1919 V: 171, n. 1).

Nas suas memórias de 1834 sobre a vinda, para Portugal, do ramo carlista da família real espanhola, o visconde de Santarém compara a situação de D. Joaquim Abarca (1778-1844), bispo de Leão, que o governo madrileno suspeita, nos primeiros meses de 1833, estar refugiado em Braga, com a situação da duquesa de Berry:

Que ainda há pouco tempo tinha tido um exemplo bem saliente da dificuldade de descobrir pessoas que se introduzem disfarçadas, e furtivamente, em um país, no que se passara em França, com S. A., a duquesa de Berry. Toda a França conhecia aquela alta personagem; introduziu-se disfarçadamente, o governo francês fez todas as diligências para a sua prisão, e apesar disso correu a França, até pela posta, em diversas direcções, sublevando províncias, manifestando-se em muitas partes, escapando à vigilância da mais dextra e activa polícia que existe na Europa, e escapando às eficazes diligências das autoridades militares e só foi descoberta pela prisão de Dentz [Deutz]. Se, pois, uma personagem tão conhecida de França só uma traição a fez entregar, e conhecer, como não seria mil vezes mais difícil o reconhecer-se, em Portugal, o bispo de Leão, de quem nenhum conhecimento existia (SANTARÉM 1919 V: 329).

Embora viva ainda muitos anos, a duquesa de Berry não mais se destaca no panorama legitimista europeu.

FONTES

Manuscritas

– Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), Secção de Reservados, ofício de 21 de Fevereiro de 1833 dirigido pelo duque de Cadaval ao 2.º visconde de Santarém.

Impressas

– LAGARDE, André, & MICHARD, Laurent, XIX Siècle. Les Grands Auteurs Français du Programme, vol. V, Paris, Bordas, 1963, p. 31.
LICHNOWSKY, Portugal. Recordações do ano de 1842, Lisboa, Imprensa Nacional, 1844, pp. 36-37.
– MAUROIS, ANDRÉ, Chateaubriand, pp. 343, 353-354 e 360-364.
– SANTARÉM, Visconde de, Correspondência do… Coligida, coordenada e com anotações de Rocha Martins (da Academia das Ciências de Lisboa). Publicada pelo 3º Visconde de Santarém, Lisboa, Alfredo Lamas, Mota e Cª, Editores, 1919, vols. IV,  pp. 483-485, e V, 1919, pp. 103, n. 1, 171, n. 1, e 329.

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