Projecto Arquivos e Estudos do Miguelismo

Bourmont, conde Louis-Auguste-Victor de Ghaisnes de

Daniel Estudante Protásio (Centro de História da Universidade de Lisboa)
O conde de Bourmont (2 de Setembro de 1773-27 de Outubro de 1846) foi marechal de França e marechal-general do Exército de D. Miguel, na senda do marechal-general graduado duque de Wellington (1809) e do marechal-general efectivo visconde de Beresford (1816). Nesse sentido, Bourmont é uma das figuras maiores do legitimismo europeu, entre 1791 e 1833.
Nasce e falece em Freigné, no departamento francês de Loire-Interieure, criado pela revolução francesa, que integra a região da Bretanha.
Escreve João Palma-Ferreira (1931-1989) sobre este militar contrarrevolucionário:
oficial das Guardas aquando da Revolução Francesa, emigrou em 1789. Foi Ajudante-de-campo [do príncipe] de Condé e esteve na sublevação da Vendeia. Tomou parte nas campanhas do Reno, em 1794, e pertenceu ao Exército do Visconde de Scepeaux. O Conde de Artois promoveu-o a Marechal-de-Campo. Em 1799 foi aprisionado pelos Republicanos e em 1800 apresentou-se a Napoleão. Preso em 1804, por conspiração realista, conseguiu fugir e refugiar-se em Portugal [PALMA-FERREIRA 1982: 77, n. 33].
Serve, com o pai, sob o comando do príncipe de Condé no exército do Reno, em 1791 e, mais tarde, do conde de Artois, futuro Luís XVIII (1796-1797). Participa no movimento de insurreição armada da Chouannerie, em 1798 e 1799.
No seguimento da conspiração de 2 de Dezembro de 1800 contra Napoleão I, Bourmont é preso por ordem de Joseph Fouché, durante três anos e meio, evadindo-se a 5 de Agosto de 1804. Refugia-se em Portugal, primeiro ao serviço do regente D. João, depois de Junot, que serve, entre 1805 e 1808, enquanto chefe de Estado-Maior da divisão Loison (PIRES 1940: 385). Sem a protecção de Junot, é de novo colocado sob prisão, no regresso a França, de finais de 1808 a Maio de 1810.
Invoquemos, novamente, Palma-Ferreira, o qual contribui com importantes insights sobre esta polémica figura oitocentista:
Autêntico aventureiro, foi novamente preso em França mas, logo solto, veio a combater na Rússia. Em 1814 era General de Brigada e seguidamente de Divisão. Realista, serviu Luís XVIII e novamente Napoleão, abandonando depois os soldados em Fleurus [batalha ocorrida em 26 de Julho de 1794]. Depôs contra o Marechal Ney [executado a 7 de Dezembro de 1815, PALMA-FERREIRA 1982: 77, n. 33].
Serve com bravura e inteligência no Exército napoleónico de Itália, na batalha de Leipzig e na Rússia, sendo promovido a general de divisão em Fevereiro de 1814 (aos 30 anos). Luta pelos Bourbons, por Napoleão nos Cem Dias e, de novo, por Luís XVIII e pelo seu irmão, Carlos X de França, entre 1815 e 1830.
Parte com o duque de Angoulême (filho primogénito do herdeiro do trono) para Espanha, para restaurar a monarquia tradicional de Fernando VII, em 1823, na expedição dos Cem mil filhos de São Luís. Quando regressa, é feito par do reino.
A 9 de Agosto de 1829 é nomeado ministro da Guerra no ministério ultra-realista do príncipe de Polignac. Comandante-em-chefe das tropas que conquistam a Argélia em 1830. A 15 de Julho desse ano, escassas semanas da revolução liberal, é designado marechal de França. Serve a causa legitimista francesa, da duquesa de Berry e do conde de Chambord, até 1832.
Existe uma carta do conde da Ponte, Embaixador Extraordinário e Ministro Plenipotenciário, oficioso, de Dom Miguel em Paris, morador na rue de La Chausée d’Antin nº 49, datada de 15 de Janeiro de 1830, para Bourmont, ministro da Guerra de França [SANTARÉM 1919 III:  94).
Desde pelo menos Dezembro de 1832 que António Ribeiro Saraiva, secretário de legação de D. Miguel em Londres, está em contacto directo com o conde de Bourmont, exilado na capital britânica desde Novembro de 1830 (PIRES 1940: 387). Quem serve de intermediário à negociação da contratação do marechal de França é o marechal-general Beresford, o mesmo que regressara a Portugal em Outubro de 1823 e que está presente aquando da Abrilada (1824). Como diz Satúrio Pires, em texto pouco conhecido de 1940 sobre o conde de Bourmont, William Carr Beresford não aceita ser ele o comandante do exército de operações sobre o Porto, por se dar o “caso curioso” de ir encontrar nos postos superiores da hierarquia militar portuguesa os oficiais-generais que em 1820 “tinham imposto a sua exoneração do comando do Exército e pronto regresso a Inglaterra: Peso da Régua, Póvoas, Santa Marta, Teles Jordão e outros” (PIRES 1940: 387 e VALENTE 2018: 83).
A 20 de Maio de 1833 o duque de Cadaval, marechal graduado do Exército, informa António Ribeiro de que se deseja a vinda do marechal francês para liderar as tropas de terra, assim como se negoceia a vinda do capitão-de-mar e guerra Henry Elliot para comandar as de mar (PIRES 1940: 387-388).
A 23 de Junho seguinte, o conde de Bourmont regressa de Genebra a Londres. Na tarde de 22, “faz a sua apresentação a [António] Ribeiro Saraiva”. Dias depois, o Encarregado de Negócios português “dá-lhe ideia dos «cortesãos, dos intrigantes que rodeiam El-Rei, dizendo-lhe qual era o carácter e valor de várias pessoas com quem tinha que tratar quando chegasse a Portugal. Indicando-lhe [o] quanto era necessário que ele ajudasse, com a influência grande que necessariamente havia de ter, a pôr mais alguma ordem no governo e andamento das cousas». E acrescenta, ainda, o Diário [de Ribeiro Saraiva]:
Ajustei com ele, sobre estes pontos, [que] nos entenderíamos por escrito e disse-lhe que convinha, sobretudo, que ele pedisse a El-Rei que todas as comunicações entre ele e Sua Majestade, que não fossem presenciais, fossem por meio e intervenção do duque de Lafões (irmão do de Cadaval).
E por fim:
As principais razões que dei foram que convinha, sobretudo, tratar e pôr os negócios em mãos de gente de bom carácter, de verdadeiro zelo e desejo de bem público e que, muito especialmente, fossem superiores às intrigas das camarilhas e das sevandijas do Paço (Pires 1940: 390).
A 1 de Julho é assinada a convenção com Bourmont. A 10 desembarca, mais o seu estado-maior, na praia de Azurara (Vila do Conde, PIRES 1940: 396). A 14, no paço real de Leça do Bailio, o conde de Barbacena é promovido a marechal do Exército, enquanto Bourmont lhe sucede enquanto chefe de Estado-Maior do Exército, com a patente de marechal-general (PIRES 1940: 392 e 395). A 25 seguinte,
mandou assaltar em toda a frente as linhas liberais para cortar definitivamente a ligação da cidade [Porto] com o mar da Foz, por onde os sitiados recebiam reforços e mantimentos, o que falha [DÓRIA 1989 (2.ª ed.) I: 363].
Decretos de 14 de Julho de 1833
Tendo Eu pela Carta Régia da data de hoje nomeado ao Marechal de França, Conde de Bourmont, Marechal General dos Meus Reais Exércitos, junto à Minha Real Pessoa e Chefe do Meu Estado Maior General, Sou servido exonerar ao Conde de Barbacena do referido cargo de Chefe de Estado Maior General, devendo continuar a servir interinamente de Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Guerra. O mesmo ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Guerra o fique assim entendendo. Paço em Leça de Bailio, aos catorze de Julho de mil oitocentos e trinta e três. = Com a rubrica de SUA MAGESTADE.
Tendo atenção aos Serviços que Me tem feito o Conde de Barbacena, Tenente General Graduado dos Meus Reais Exércitos, que pelo seu valor e talentos militares tem merecido a Minha consideração, sou servido promovê-lo a Marechal dos Meus Reais Exércitos, com todas aquelas prerrogativas e preeminências que competem a tal posto. O Ministro e Secretário de Estado que interinamente serve nos Negócios da Guerra, assim o tenho entendido e expeça os despachos necessários. Paço em Leça de Bailio, em catorze de Julho de mil oitocentos e trinta e três anos. = Com a rubrica de SUA MAGESTADE (GAZETA DE LISBOA n.º 172, de 23-7-1833: 890 e CARRILHO 2002: 6 e 94).
Nesse momento, o visconde de Veiros, o primeiro dos quatro marechais de D. Miguel, já faleceu: a 6 desse mês, aos 85 anos. O segundo e mais antigo dos marechais é o duque de Cadaval. Fica descontente com o facto de ser mais antigo e apenas graduado, face à nomeação do conde de Barbacena, conforme revela ao visconde de Santarém. Essa alteração da hierarquia militar, encimada, de novo, por um estrangeiro (tal como sucedera com Wellington e Beresford), vem criar considerável mal-estar entre as elites politicas e sociais miguelistas.

Terá assumido em Coimbra, morto o conde de Basto e caído em desgraça o duque de Cadaval, uma preponderância político-militar extraordinária:

guindado a quase primeiro-ministro omnipotente, a dominar as pastas da guerra e da fazenda, a querer empolgar todos os altos cargos.

O conde de Bourmont substituía assim, naqueles ministérios, os condes de São Lourenço (por doença) e da Lousã (porque caído em desgraça ou por falta de fundos governamentais). Como se não bastasse, rapidamente o marechal-general chamou também a si as funções de

General-em-Chefe do Exército de Operações sobre Lisboa”, substituindo Almer. 

Nos finais de Setembro de 1833, Bourmont é substituído enquanto comandante-em-chefe das tropas miguelistas.

Sabe-se também que o duque de Cadaval foi ouvido a propósito do caso de Bourmont, na condição de conselheiro militar do rei.

Segundo carta de António Ribeiro de Saraiva dirigida ao barão de Vila Seca, datada de 2 de Janeiro de 1838,

Ao que constava, a demissão dada a Bourmont estava relacionada com a sua insistência, em conselho de D. Miguel, no chamamento dos três Estados (carta de Ribeiro Saraiva a Vila Seca, 2 de Janeiro de 1838 [MÓNICA 1997: 234, n. d)].

Aquando do exílio romano de D. Miguel, são nomeados comendadores

dois carlistas franceses, futuros genros de Bourmont, que tinham servido no exército miguelista [MÓNICA 1997: 52 a)].

Quinhones, na obra citada, diz que D. Miguel fora aconselhado pelo general Conde Bourmont [sic], o vencedor de Argel que ajudou D. Miguel na guerra civil portuguesa, a fingir-se pobre, sugestão rapidamente aceite (MÓNICA 1997 54 a)].

Bourmont ocupa as funções de comandante-em-chefe do Exército de Operações sobre Lisboa até 19 de Setembro de 1833, quando pede demissão dessas funções (DÓRIA 1989 I: 363 afirma 21 de Setembro). A incapacidade demonstrada em reconquistar a capital, assim como as críticas dos sectores ultrarrealistas, acusando-o de traidor e de vendido aos liberais, fazem-no cortar com a causa legitimista portuguesa (PIRES 1940: 396 e 410-413 e DÓRIA 1989 I: 363).
Viveu ainda em Espanha e na Itália e só regressou a França em 1840, morrendo seis anos mais tarde no seu domínio de Bourmont (João Palma-Ferreira, in  COSTA 1982: 77, n. 33).
Fontes

CARRILHO, Luiz Pereira, Os Oficiais d’El-Rei Dom Miguel (Introdução e índices Nuno Borrego e António de Mattos e Silva), Lisboa: Edições Guarda-Mor, 2002 (reedição fac-similada da 1ª edição, de 1856).
– COSTA, Coronel António José Pereira da (Coord.), Os Generais do Exército Português, II Vol., I t., Lisboa, Biblioteca do Exército, 2005, nº 19-0399, p. 253.
– COSTA, Francisco de Paula Ferreira da, Memórias de um miguelista (1833-1834). Prefácio, transcrição, actualização ortográfica e notas de João-Palma Ferreira, Lisboa, Editorial Presença, 1982.

– DÓRIA, António Álvaro, “Bourmont, Louis-Auguste-Victor”, in Joel Serrão (Dir.), Dicionário de História de Portugal, vol. I, Porto, Livraria Figueirinhas, 1989 (2.ª ed.),  p. 363. MÓNICA, Maria Teresa, Errâncias Miguelistas (1834-43), Lisboa, Edições Cosmos, 1997. – PIRES, Eurico Satúrio, “O Marechal-conde de Bourmont em Portugal (Julho a Setembro de 1833)”, Sexto Congresso do Mundo Português, 1940, p. 385. – VALENTE, Vasco Pulido, O Fundo da Gaveta, Lisboa, Publicações D. Quixote, 2018, p. 83. – VICENTE, António Pedro, O recrutamento de militares no estrangeiro – de Schaumbourg Lippe a William Beresford (Separata das Actas do IV Colóquio A História Militar de Portugal no Século XX), 1993. – Gazeta de Lisboa nº 172, de 23 de Março de 1833, p. 890 e Ordens do dia nº 83.

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