Projecto Arquivos e Estudos do Miguelismo

Arte, iconografia e imagética

Daniel Estudante Protásio (Centro de História da Universidade de Lisboa)

Última actualização: 26 de Julho de 2026

Consistindo, genericamente, a arte na experiência estética, a iconografia no alfabeto dos símbolos e a imagética no universo das representações, podemos entender esta tríade conceptual enquanto súmula de emoções, percepções e registos dos períodos históricos do Neoclassicismo, do Pré-romantismo e do Romantismo (1750-1850).

Porém, estas manifestações de sensibilidade estética, ética e ideológica não devem ser analisadas de modo isolado. A literatura e a pintura, o teatro, a dança, o bailado, a ópera, são algumas das produções humanas que exprimem estados de alma, emoções, e sensações, num período histórico anterior à fotografia, ao cinema e à televisão, invenções tecnológicas da segunda metade do século XIX e da centúria seguinte.

Em carta particular, datada de 28 de Fevereiro de 1839, endereçada pelo 2.º visconde de Santarém ao 8.º conde da Ponte, sobrinho por afinidade, comenta o apreço de décadas mantido pelo teatro francês:

Seu pai [o 7.º conde da Ponte, 1797-1852, irmão da viscondessa] lhe terá aí contado mots et merveilles da nova tragédienne – Mademoiselle Rachel [Elisa-Rachel Félix, 1821-1858]. É um portento. Eu ainda conheci [François Joseph] Talma [1763-1826] e Mademoiselle Duchesnois [1777-1835], e confesso que esta criatura é superior àqueles dois heróis da cena trágica. Portanto, aqui tem uma grande trágica nova em folha (SANTARÉM 1919 VI 49).

Na pintura, Tiepolo (1696-1770), Caneletto (1697-1768), Francisco de Goya (1746-1828), Jacques-Louis David (1748-1825), Joseph Turner (1775-1851), Jean-Auguste-Dominique Ingres (1780-1867) e Ferdinand-Victor-Eugene (1798-1863), são alguns dos maiores artistas que se evidenciam de 1750 a 1850. Nos seus quadros encontramos registos de eventos políticos, históricos, sociais, culturais, religiosos, que nos ajudam a melhor entender a mentalidade e sensibilidade, tanto de elites, quanto de massas.

Na música de câmara (tal como, de resto, na pintura), a acção mecenática de soberanos e aristocráticos é essencial. Tal como Bach, o compositor Joseph Haydn (1732-1809) é protegido da família dos Esterhazy: tanto do príncipe Nikolaus I Esterházy (1714-1790), quanto do filho, Nikolaus II Esterházy (1765-1833), Enciclopédia Salvat dos Grandes Compositores, pp. 244 e 278, legendas.

Na literaturaMaon Lescaut (1731), do abade Prévost (1697-1763) e Frankenstein (1818), de Mary Shelley (1797-1851), os romances de Walter Scott (1771-1832) e de Jane Austen (1775-1817), marcam sucessivas alterações do gosto pela novela e pela literatura de entretenimento e de cariz social, muito antes de Charles Dickens (1812-1870) começar a narrar as consequências sociais da Revolução Industrial inglesa. Voltaire, a Enciclopédia, Rousseau, os salões literários e filosóficos de madame de Staël e de Recamier, imprimem na consciência social e política do mundo franco-britânico a necessidade de mudança, seja pela via reformista, seja pela via revolucionária.

As maçonarias branca e vermelha, a carbonária, a restauração da Companhia de Jesus, os escritos de autores conservadores e contrarrevolucionários como Edmund Burke, Bonald, de Maistre, as teorias da conspiração propagadas pelo abade de Barruel, acerca da revolução francesa, completam um quadro geral de confronto de ideias, convicções e propostas de mudança.

 

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