Projecto Arquivos e Estudos do Miguelismo

Crouÿ-Chanel, conde de

Daniel Estudante Protásio (Centro de História da Universidade de Lisboa)

Actualizado a 8 de Agosto de 2026 (primeira versão: 30 de Junho de 2026. Este texto beneficiou da utilização de IA, para identificação de nomes)

Na correspondência, e bibliografia, relativa ao empréstimo contraído junto da Casa financeira Outrequin & Jaunes, de François-Jacques Outrequin (1763–1820) e de Jean-François-Theodore Jauge (1783-1864), surge, por vezes, o nome do conde de Croy. Este aristocrata aventureiro aparece identificado ora enquanto Claude Henri, conde de Crouÿ-Chanel (1764-1843), ora enquanto François Claude Auguste de Crouy-Chanel, 1.º príncipe romano de Chanel (1793-1873).

François Claude Auguste de Crouy-Chanel (1793-1873), nascido em Duisburg (Prússia), no seio de uma família que fugia da revolução francesa, torna-se relevante, em 1821, juntamente com o irmão Henri, quando organiza uma recolha de fundos para a insurreição grega, face ao domínio otomano. Em 1823, enquanto mediador financeiro (financial broker), envolve-se com os realistas espanhóis, na luta contra a segunda experiência constitucional nesse reino. De 1825 a 1828 viaja entre Paris, Madrid e Londres, procurando apoio político e monetário para a causa do infante espanhol Francisco de Paula (1793-1865), o qual, secretamente, tenta tornar-se imperador do México [XOCCATO 2015: 1-2 [não numeradas].

O historiador Antonio Manuel Moral Roncal contextualiza o episódio de uma autocandidatura do infante espanhol Francisco de Paula a imperador do México, enquanto forma de a esposa, a princesa Luísa Carlota de Duas-Sicílias, irmã da duquesa de Berry, de Maria Cristina (futura esposa de Fernando VII) e da infanta napolitana Amélia (a qual casa, em 1832, com D. Sebastião Gabriel, infante ibérico), nivelar a influência que as infantas portuguesas em Madrid, e Carlos Maria Isidro, tinham na corte espanhola (MORAL RONCAL 2000: 159). O conde de Croy é encarregue pelo pretendente ao trono mexicano de conseguir apoios de monárquicos hispano-americanos e de obter um empréstimo financeiro de um milhão de libras esterlinas, assim como o apoio político de George Canning, primeiro-ministro britânico (1770-1827). Em 1828, o conde nomeia o duque de Dino comandante-general do exército expedicionário que deveria partir para o México, o barão de Talleyrand conselheiro de Estado e o visconde de Astier coronel de estado-maior. Porém, quando o rei Fernando VII é informado do projecto político do irmão, ordena-lhe que desista da ideia, até porque, em finais de Julho de 1829, a expedição Barradas (uma frota naval comandada pelo brigadeiro Isidro Plácido del Rosario Barrada y Valdés) parte de Cuba em direcção ao México, para submeter a província de Nova Espanha ao poder colonial da metrópole. Apesar do infante Francisco de Paula suspender o projecto, a mando do irmão, subsiste a questão de empréstimos contraídos, em Paris, em nome da causa, e despesas empregues em obter diversas formas de apoios. Um magistrado francês, de apelido Litous, vem a Espanha, em 1830, cobrar determinadas quantias ao infante, acabando a polícia espanhola por informar disso mesmo o rei Fernando VII (MORAL RONCAL 2000: 159-160). 

François Claude Auguste de Crouy-Chanel terá feito o mesmo, relativamente a Portugal. Em ofício do 2.º visconde de Santarém, datado de 31 de Janeiro de 1830, endereçado ao rei D. Miguel, surge a seguinte informação:

Refere-me, contudo, o conde [da Ponte, embaixador extraordinário e ministro plenipotenciário, oficioso, em Paris] que, logo que constara que se ia negociar um empréstimo por parte de Portugal, se levantara uma nuvem de intrigantes, uns liberais, outros aventureiros, como o marquês de Croy [sic], para o atravessarem e impedirem, debaixo de propostas simuladas. Entre estes é um companheiro do Croiy [sic] chamado conde Achille Geoffroy, o qual, por meio do [negociante José] Freire, do Porto, escreveu para aqui, a fim de atravessar este negócio com outro projecto que nunca realizaria, como aconteceu com o que praticou com a regência de Urgel [1822-1823], a quem surpreendeu e iludiu [SANTARÉM 1919 III: 107-108].

Em 1831 François Claude Auguste de Crouy-Chanel é preso, acusado de introduzir moeda falsa no mercado francês. Acaba por ser libertado a 5 de Setembro de 1832, considerado inocente [XOCCATO 2015: 2 (n.n.)].

Fontes

– MORAL RONCAL, Antonio Manuel, “El infante don Francisco de Paula Borbón: masonería y liberalismo”, Investigaciones históricas: Época moderna y contemporánea (20), 2000, pp. 159-160.
– RIBEIRO, Tomás, D. Miguel e a sua realeza e o seu empréstimo Outrequin e Jauge. Estudo crítico, histórico e jurídico por um deputado da nação portuguesa, Lisboa, Tipografia Universal, 1880, pp. 73 e 201 e ss.
– SANTARÉM, 2.º Visconde de, Correspondência do… Coligida, coordenada e com anotações de Rocha Martins (da Academia das Ciências de Lisboa). Publicada pelo 3.º Visconde de Santarém, vol. III., Lisboa, Alfredo Lamas, Mota e C.ª, Editores, pp. 107-108.
– XOCCATO, Demetrio, “A masonic pretender to the hungarian throne: François Claude Auguste de Crouy-Chanel”, in https://www.academia.edu/19634246/A_Masonic_pretender_to_the_Hungarian_throne_François_Claude_Auguste_de_Crouy_Chanel 

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