Projecto Arquivos e Estudos do Miguelismo

Vitrolles, barão de

Daniel Estudante Protásio (Centro de História da Universidade de Lisboa)

Eugène François Auguste d’Arnauld, barão de Vtitrolles, nascido em Vitrolles, nos Altos Alpes franceses a 11 de Agosto de 1774 e falecido em Paris a 1 de Agosto de 1854, a dez dias de completar 80 anos, foi um aristocrata, político e escritor francês.

Exilado em 1791, integra o exército de Louis Joseph de Bourbon, príncipe de Condé (1736-1818), primo direito do rei Luís XVI. Regressa a França em 1799.

Publica, em 1801, De l’Économie publique réduite à un principe e, em 1814, Le ministère dans le gouvernement représentatif.

Apoia, na Provença, a restauração da dinastia de Bourbon em 1815, mas é aprisionado no castelo de Vincennes e na Prisão de l’Abbaye (na qual, em 1792, ocorreram os massacres de Setembro).

Em 1815 e 1824 integra ministérios governamentais (na primeira das vezes, enquanto titular da pasta do Interior). Fazia parte do “cabinet vert” (gabinete verde) do conde de Artois, futuro Carlos X, no pavilhão de Marsan, nas Tulherias, no qual, supostamente, os ultrarrealistas conspiram (BRÉGEON 2009: 68). Em 1820, é nesse pavilhão que nasce o conde de Chambord, Henrique V para os legitimistas, filho póstumo dos duques de Berry.

Durante um ano, de 22 de Agosto de 1815 a 5 de Setembro de 1816, é deputado na chambre introuvable, sentando-se entre os ultrarrealistas franceses. Esta facção parlamentar obtém 350 dos 402 assentos nas eleições de Agosto de 1815, devido ao impacto do chamado Segundo Terror Branco, contrarrevolucionário, sobretudo no sul de França.

Em 1837, o 2.º visconde de Santarém (1791-1856), ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Dom Miguel e antigo guarda-mor da Torre do Tombo convive, em Paris, com o barão de Vitrolles, Disso dá-nos conta certas passagens dos seus memoranduns de leituras e observações sociais, inéditos até 1914 (SANTARÉM 1914: 204 e 232).

Numa delas escreve, relativamente a 4 de Setembro de 1837:

Mr. de Vitrolles = antigo ministro do Interior de Luís 18 =

Ali [em casa do marquês de Fortia d’Urban, 1756-1843] também vi pela 1.ª vez este indivíduo histórico. É um homem de 50 a 60 anos [tinha 63], mas muito bem conservado, com um penteado poudré [polvilhado] e muito peralta = tendo as melhoras maneiras e conversando com o maior espírito =. Falando da beleza de algumas inglesas do seu tempo, falou na antiga duquesa de Devonshire [Georgiana Cavendish, 1757-1806], que ele tinha conhecido, e que era uma das mais belas mulheres de Inglaterra, e disse que ela introduzira o costume de andar só de passeio [passear só]. = Que uma vez, fazendo-lhe ele um cumprimento à sua beleza, ela lhe respondera que todo o mundo lhe tinha dito o mesmo, mas que a fineza que mais a tinha encantado fora a que lhe dissera um marinheiro. = Referiu que indo ela passear, só, pelas bordas do Tamisa, um marinheiro, que vinha com o seu cachimbo na boca, a seguira, e parara defronte dela, metendo-lhe a cara [aproximando o rosto], que ela decididamente lhe perguntara o que queria, ao que ele lhe respondera que o mais desejava seria poder acender o seu cachimbo com o fogo dos seus olhos. Mr. de Vitrolles acrescentou [que] talvez na Academia Francesa, e mesmo na das Inscrições, nunca se dissesse uma coisa tão espirituosa! (SANTARÉM 1914: 204).

Noutra passagem, comenta o seguinte:

Duque de Coigny [François-Henri de Franquetot de Coigny, 1737-1821]

Mr. de Vitrolles, com a sua graça costumada, contou-nos, no dia 28 Maio [de 1838], falando eu nesta personagem que, durante a emigração, esteve em Lisboa, que era um belo homem, e que foi um grande conquistador de senhoras. Que era voz pública que ele era amante da rainha Maria Antonieta, e que ele, temendo que uma tal anedota continuasse a grassar no público, e que viesse aos ouvidos do rei [Luís XVI], e que lhe fizesse perder a imensa fortuna, pedira ao duque de Guignes [Adrien Louis de Bonnières, 1735-1806] que fizesse tudo pelo [para o] desmentir. Que poucos dias depois, estando El-Rei à caça e achando-se cansado, se sentara em uns troncos de árvores com ele, duque de Coigny e com o de Guignes. Quando, momentos depois, um cuco veio pousar-se na árvore e começou o seu canto = Cocu, cocu [cornudo] = o duque de Guignes, mesmo por trás de El-Rei, voltou-se para o de Coigny e disse-lhe = Vous voyez que les propos vous suivent partout? = o outro estremeceu, e calou-se! [SANTARÉM 1914: 232].

São publicados, postumamente, textos memorialísticos do barão de Vitrolles: Mémoires et relations politiques (1814-30), Charpentier, 1884, e Mémoires de Vitrolles (F. Paillart, 1952, vol. 2).

FONTES

– BRÉGEON, Jean-Jöel, La Duchesse de Berry, Paris, Tallandier Éditions, 2009, p. 68.
– PROTÁSIO, Daniel Estudante, 2.º Visconde de Santarém (1791-1856): uma biografia intelectual e política, Lisboa, Chiado Books, 2018, p. 191 e n. 413.
– SANTARÉM, 2.º Visconde de, Inéditos (miscelânea), coligidos, coordenados e anotados por Jordão de Freitas (bibliotecário da Biblioteca da Ajuda) e trazidos à publicidade pelo 3º Visconde de Santarém, Lisboa, Imprensa Libânio da Silva, 1914, pp. 204 e 232.

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