Daniel Estudante Protásio (Centro de História da Universidade de Lisboa)
Antoine Clouet, barão do império (1781-1862), é um dos vários militares franceses que percorre a Europa legitimista da década de 1830. Nasce em Créteil, nos subúrbios de Paris, filho de Jean-Baptiste-Paul-Antoine Clouet, funcionário ao serviço de Napoleão, e de Marie Angélique Françoise Touzard d’Olbecq.
É cunhado de Marie-Antoine, visconde de Reiset (1774-1836), tenente-general francês que comanda, em 1823, a divisão catalã da expedição francesa a Espanha, liderada pelo duque de Angoulême.
Sub-tenente na Escola militar de Metz, em 1802, participa nas campanhas napoleónicas da Áustria, Itália e Prússia, sendo feito prisioneiro dos russos na batalha de Austerlitz (1805), sofrendo um ferimento de baioneta.
Subcomandante a 18 de Dezembro de 1807, é ajudante de campo do marechal Ney de 18 de Novembro de 1808 a 24 de Fevereiro de 1810 e de 26 de Fevereiro de 1814 a Março de 1815.
Lutando na guerra de independência de Espanha, é destacado, a 24 de Fevereiro de 1810, enquanto ajudante de campo do rei José I (1808-1813), irmão do imperador Napoleão I.
Transita para o Estado-maior do general Tousard, de quem é ajudante de campo de 11 de Setembro de 1812 a 25 de Fevereiro de 1813. Nesta última data, é promovido a chefe de esquadrão (major).
Destacando-se na batalha de Lützen (a 2 de Agosto de 1813), na qual é ferido, é promovido a coronel e integrado no estado-maior do marechal Ney, pela segunda vez.
Nomeado barão do império a 10 de Agosto de 1813.
Feito prisioneiro pelos prussianos aquando da batalha de Dennewitz (a 6 de Setembro de 1813), é mantido na ilha de Rügen quase um ano, até Agosto de 1814.
A 1 de Abril de 1815, após o regresso de Napoleão do exílio da ilha de Elba, é nomeado chefe de estado-maior da 14.ª divisão de infantaria do 4.º corpo de observação.
Em seguida, transita para chefe de estado-maior do 4.º corpo do exército do Norte (do Grand Armée napoleónico), sob o comando do conde de Bourmont. Com este general, passa ao serviço de Luís XVIII, a 15 de Junho de 1815, depois de ambos recusarem assinar o acto adicional às constituições imperiais, publicado a 23 de Abril.
Comandante-em-chefe da expedição à Flandres (a 25 de Junho de 1815) e coronel da legião departamental do Somme a 11 de Outubro seguinte.
Com a reinstauração da paz, é colocado na reserva militar, na qual permanece durante mais de cinco anos, de 9 de Maio de 1816 e 21 de Novembro, data em que é designado coronel do 9.º regimento de infantaria ligeira.
Participa na expedição militar liderada pelo duque de Angoulême, enquanto coronel do 9.º regimento de cavalaria ligeira (lanceiros). Enquanto comandante interino do 2.º Corpo do Exército de Reserva que bloqueia San Sebastían, no País Basco espanhol.
Marechal-de-campo em Outubro de 1823, é de novo colocado na disponibilidade. Em 1826 é nomeado administrador do departamento de Loiret, no vale do Loire.
Destaca-se na expedição francesa à Argélia, em 1830 (na qual o conde de Bourmont também participa). Depois de vencer uma batalha, é presenteado, pelos seus soldados, com um yatagan honorífico (sabre turco), conquistado ao inimigo.
Recusando-se a aderir à monarquia de Julho, é colocado na reforma a 19 de Agosto de 1831.
Aquando da 5.ª guerra da Vendeia, em 1832, comanda o 4.º corpo dos legitimistas do oeste, participando, vestido de roupas civis, no combate de Chanay (a 26 de Maio de 1832). *pr essa razão, é condenado à morte pelo tribunal de apelação do Loiret (Cour d’Assisses) a 18 de Março de 1833, e em efígie a 2 de Maio seguinte.
Tem os seus bens confiscados, mas a perseguição que lhe é movida, assim como aos demais chefes da insurreição legitimista, é suficientemente branda para lhes permitir a saída de França. Refugiado na Bretanha, passando depois a Inglaterra, o barão de Clouet passa a servir a causa miguelista.
A 16 de Julho de 1833, dois dias depois do conde de Bourmont ser designado marechal-general do exército de Dom Miguel, e o conde de Barbacena marechal da mesma força armada, o barão é promovido a tenente-general. Outros oficiais-generais franceses, veteranos das expedições a Espanha e à Argélia e da(s) guerra(s) da Vendeia, são igualmente incorporados: a 21 de Julho, o conde Augusto de La Rochejaquelin é feito tenente-general; a 23, o barão de Grival é efectivado em marechal-de-campo e o conde de Almer graduado na mesma patente. Um terceiro marechal-de-campo, de apelido Bourdais, fecha o leque de nomeações, a 30 de Julho. O conde Louis de Bourmont, um dos quatro filhos do marechal-general conde de Bourmont que o acompanham a Portugal, é um dos oficiais superiores que se destaca, nomeado coronel a 23 de Julho. Trata-se da resposta miguelista à vinda de oficiais e tropas estrangeiras, no desembarque liberal de 8 de Junho de 1832, na praia do Mindelo, a sul de Vila do Conde.
Sobre esta matéria, escreveu António Álvaro Dória:
Clouet, general. Oficial francês, ao serviço de D. Miguel, que, juntamente com Eliot, o conde de la Genetière (conhecido por general Almer), Terell (conhecido por Grival), o coronel Breviel e Luís de Bourmont, desembarcaram em Vila do Conde em 28 de Julho de 1833, seguindo ele para Coimbra a comandar uma fracção das tropas realistas, com as quais marchou depois para o sul, ao encontro do rei, que se encontrava a dirigir as operações do ataque a Lisboa, então na posse de seu irmão D. Pedro. Clouet estabeleceu o seu quartel perto do Campo Grande, assistindo à investida da capital ordenada a 5 de Setembro por Bourmont. Após uma luta violenta em frente do reduto da Atalaia, que durou desde as 5 horas da manhã até às 3 horas da tarde, Bourmont deu ordem a Clouet para avançar à frente de três brigadas, mas sem êxito, pelo que este aconselhou o rei a desistir da continuação do ataque naquele dia, em face das pesadas baixas sofridas. No dia imediato realizou-se um conselho de generais, sendo então Clouet de opinião que se renovasse o ataque à cidade, mas não foi ouvido o seu parecer, mantendo-se as tropas inactivas até ao dia 14, em que se efectuou nova investida, já quando os liberais se tinham firmado melhor nas suas posições. Clouet demitiu-se então do comando, e, quando nos fins do mês [de Julho de 1833] Bourmont, desacreditado, se exonerou, saiu de Portugal na sua companhia, juntamente com outros oficiais franceses do exército realista (DÓRIA, in SERRÃO 1989 [2.ª ed.]; 80-81.
Depois da derrota de Dom Miguel (1834), retira-se para Genebra (Suíça), tornando-se editor de música clássica. Em 1837, torna-se professor de estratégia militar do conde de Chambord, neto de Carlos X e 3.º na linha de sucessão legitimista (a seguir ao seu tio, o duque de Angoulême, dito Luís XIX).
Encontra-se na Suíça aquando da promulgação das ordenanças francesas de amnistia, a 8 de Maio de 1837 e 27 de Abril de 1840. Obtendo autorização para regressar a França, solicita, e é-lhe recusada, uma pensão de reforma, por causa da sua participação na guerra civil portuguesa. Consegue, porém, ganhar judicialmente a causa que instaura ao ministro das Finanças.
Morre em 1862, na comuna girondina de La Bréde, aos 80 anos de idade.
FONTES
– CARRILHO, Luiz Pereira Carrilho, Os Oficiais d’El-Rei Dom Miguel (Introdução e índices Nuno Borrego e António de Mattos e Silva), Lisboa, Edições Guarda-Mor, 2002 [reedição fac-similada da 1ª edição, de 1856], p. 94.
– DÓRIA, António Álvaro, “Clouet, General”, in Joel Serrão, Dicionário de História de Portugal, Porto, Livraria Figueirinhas, vol. II, 1989 (2.ª ed.), pp. 80-81.